Em meio a um panorama de endurecimento regulatório da União Europeia e um movimento anti-ESG nos EUA crescente, empresas que atuam globalmente enfrentam uma dicotomia quando o assunto é rumos do meio ambiente: ao mesmo tempo em que precisam atender a padrões mais rigorosos de transparência e sustentabilidade em determinados mercados, lidam com pressões políticas contrárias à essa agenda.
Na outra ponta, temas como a crise climática também unem opiniões nesse ambiente polarizado, ao menos no Brasil: segundo pesquisa da organização More in Common (2025, mais informações aqui), 96% dos entrevistados representados como progressistas militantes e 87% dos conservadores tradicionais concordam que as ações humanas são responsáveis pelas mudanças climáticas.
“Embora em muitos países e grupos políticos tenham semeado dúvidas sobre as mudanças climáticas serem causadas por ação humana, os dados mostram que essa postura não ressoa na sociedade brasileira, nem mesmo entre os Patriotas Indignados”, ressalta o relatório.
Meio ambiente e reputação corporativa
Na opinião de André Senador, autor do livro “ESG e Comunicação para o Desenvolvimento Sustentável – A transformação das marcas de automóveis” (ed. Appris, 2025, 158 p.), a polarização internacional não é apenas ideológica, pois afeta decisões concretas de investimento, crédito, cadeias de suprimento e posicionamento, haja vista que critérios ESG deixaram de ser diferenciais reputacionais e passaram a integrar o núcleo das decisões estratégicas das organizações.
“Por décadas o desempenho corporativo foi medido prioritariamente por indicadores tangíveis, como vendas, escala produtiva e resultados financeiros. Hoje, porém, atributos intangíveis como governança, transparência, sustentabilidade e responsabilidade social passaram a influenciar diretamente a reputação e a própria capacidade de permanência no mercado”, afirma o autor.
Senador completa que a reputação corporativa reflete as habilidades e aptidões das empresas para integrar as novas demandas sociais às suas estratégias ou também o contrário, o que resulta na redução de seu potencial de atuação no mercado.
Eleições e pauta ESG nas organizações
Em ano eleitoral no Brasil e em alguns pontos do mundo, o xadrez político mexe suas peças em diversas pastas e o meio ambiente fica entre “o peão e o rei” nesse jogo. Em relação às empresas, uma das certezas é que as atenções não estão voltadas somente para a pauta ambiental, mas aos eventos extremos que já impactam profundamente dentro e fora delas.
A palavra da vez é “implementação”, ou seja, tirar do papel as estratégias ESG e inseri-las dentro do contexto corporativo. Para Anna de Souza Aranha, sócia e co-CEO da Quintessa, aceleradora de startups de impacto, ao Capital Reset, as iniciativas de sustentabilidade precisam ser transparentes e alinhadas às estratégias e, principalmente, na rotina organizacional.
Segundo ela, o mercado pede clareza sobre as razões de investimentos, produtos e serviços, relações com partes interessas e, especialmente, com os consumidores e a cadeia de valor, ou seja, se todas estão em consonância com essa agenda.
Por Keli Vasconcelos – Jornalista
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