Como parte da imersão do SITEC Ambiental 2026 – Seminário de Tecnologia e Soluções Ambientais para a Indústria (confira a cobertura neste link), o Portal TECNEWS faz um aprofundamento de cada palestra pertencente aos painéis realizados nos dois dias de evento (18 e 19 de março). O painel Eficiência Hídrica – Cada Gota Conta: reduzindo custos e protegendo seu negócio, tratou das utilizações responsáveis e conscientes dos recursos hídricos, com a primeira palestra de Álvaro Henrique Lisboa Alécio, executivo de negócios da Opersan Soluções Ambientais, especializada em soluções para a água, cujo foco foi “Como a utilização de água de reúso pode impactar o desenvolvimento sustentável das empresas”.
Reúso em ETEs
Com mais de quatro décadas de história, a Opersan tem uma carteira de mais de 600 clientes ativos e 400 colaboradores, com duas divisões de negócios (on-site), atuando em projetos que vão desde a terceirização de mão de obra especializada para atuar em operação e manutenção de Estações de Tratamento de Efluentes (ETE), até os que envolvem BOT (Build, Operate and Transfer) e EPCs (Estações de Pré-Condicionamento) – construção de sistemas de tratamento de água, efluentes ou reúso –, bem como uma divisão off-site, com seis centros próprios de ETEs.
Após a apresentação da empresa, Alécio explanou como o reúso da água pode levar as organizações para duas transformações relevantes: a de esforços em investir com propósito e a gestão ambiental como vantagem competitiva.
“Quando falamos de uma estação de efluentes, há um investimento muito alto e é imprescindível uma dedicação de esforços, já que esse investimento é diferente de, por exemplo, ampliar uma linha produtiva. Então, esse é o nosso maior desafio como empresa desse setor, levar esse olhar para a sustentabilidade de forma que brilhe os olhos de um conselho, que brilhe os olhos da diretoria, para que valha a pena a colocar esforço e dinheiro nesse projeto”, frisou em sua fala.
Desafios em meio à crise hídrica
As últimas décadas foram marcadas pela escassez hídrica e também de energia, o que demanda às empresas decisões céleres e inteligentes de gestão desses recursos. O especialista na Opersan fez uma retrospectiva dos últimos “apagões” ocorridos nos últimos anos, apontando que, muito embora haja inovações, a matriz energética ainda é dependente das hidrelétricas.
“Estamos vivendo períodos de baixa chuva nos últimos 15 anos, impactando bastante na questão da energia e baixa pressão, o que fez a Indústria sofrer mais. Aliás, esse é o primeiro sinal da importância da água dentro segmentos que tem a água como matéria-prima. Nós tivemos que passar por esses fenômenos para ter uma virada de cenário, ou seja, procurar soluções de gestão hídrica. Acho que avançamos muito, mas ainda sofremos com questão de legislação para reúso, temos algumas dificuldades, mas a água já não é mais vista apenas como recurso, mas vista realmente como ativo financeiro”, endossou.
Sistema BOT
Para exemplificar, Alécio apresentou um case de transferência de infraestrutura, ou a modalidade de negócio BOT. “Como que funciona? O cliente tem uma demanda, que é delegada a uma parceira, que faz todo o projeto, implanta os equipamentos, opera aquele ativo durante um tempo de contrato, que pode ser de cinco a 15 anos, e depois esse ativo é transferido para o cliente, que o compra ao longo do tempo”, esclareceu.
Vale ressaltar que regramentos como a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA) e a Lei dos Crimes Ambientais dispõem de sanções penais e administrativas em caso de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente pela falta ou imprudência em relação tratamento de resíduos e efluentes industriais. “Empresas poluidoras ou que não realizem o tratamento de forma correta podem sofrer inúmeros prejuízos financeiros como o pagamento de multas, paralisações das atividades até sua regularização e em alguns casos mais graves o fechamento da planta”, informa a Opersan.
De acordo com Alécio, esse modelo requer uma maturidade das partes, já que é necessária uma infraestrutura, um relacionamento estreito, uma troca de informações clara e, principalmente, uma comunicação constante de todas as operações. “A indústria quer ver o retorno, ela quer o impacto de uma linha. Não adianta tentar fazer um projeto porque ao final é bonito recuperar x metros cúbicos por ano de água. Ser só bonito não paga a conta. Essa é uma realidade que infelizmente a gente precisa enfrentar”, enfatizou.
Para tanto, a customização é um ponto importante para a aplicabilidade do modelo BOT nas operações, ou seja, se faz necessário um estudo da empresa solicitante, verificando quais tecnologias podem serem utilizadas nas instalações a serem transferidas e muitas vezes o que é interessante em determinada planta não cabe em outra, mesmo que tenham características semelhantes, salientou Alécio.
“A gestão ambientada se faz com customização. Somos abordados por players do mercado industrial, que querem implantar projetos de reúso porque querem replicar na planta deles o que foi visto em outras. Mesmo com as vazões de água, com as mesmas características de efluente, sem detalhamentos vão exigir instrumentos diferentes até da mesma tecnologia. Se eu penso em um sistema de reúso com membranas, vai ter um instrumento diferente para uma mesma vazão”, disse.
Ele acrescentou que essas premissas valem para quaisquer clientes atendidos, ou seja, não é possível uma “fórmula pronta” para tratamento e reúso: “cada fábrica tem as suas características próprias naquela água, que são diferentes uma da outra, em ppm (parte por milhão), ou ppb (parte por bilhão), e vai mudar todo o contexto daquela tecnologia. Então se a gente não customiza, não adianta. A gestão ambiental se faz especificamente para cada site industrial”, descreveu.
Gestão ambiental resiliente
Álvaro Alécio foi assertivo ao afirmar que a gestão ambiental, quando bem-feita, tem uma alta probabilidade de gerar vantagem competitiva. “Ela normalmente tem retorno sobre o investimento (ROI). Obviamente, não cabe em todos os aspectos e possibilidades, mas quando eu falo de projetos especificamente, olhamos com esse cuidado, buscamos a melhor realidade de custos, a otimização desse reúso, como será o tratamento adequado de efluente, com diminuição da geração de lodo ou uma disposição melhor, normalmente você tem um retorno maximizado”, descreveu.
Quando bem estudados e estruturados, esses projetos são revertidos em ações e bons indicadores (VPL, Payback), sendo alinhados com conceitos econômicos, fazendo com que saiam do papel, resumiu o especialista. Também não foi deixado de lado um fator que vai além dos números, o relacionamento com as pessoas, ou seja, para que um projeto de tratamento e reúso também desemboca na troca de experiências com os atores desses processos, entendendo dores e ofertando oportunidades.
“Não basta um projeto bonito. A gente precisa fazer o óbvio, ou seja, se relacionar com o cliente, além dessa nossa experiência que temos com o off-site, precisamos descobrir in loco as reais motivações que o cliente esteja procurando no mercado uma modalidade de BOT e nos adequar à demanda real dele”, finalizou.
Com o tema central “A jornada da sustentabilidade que transforma esforços e investimentos em propósito”, o SITEC Ambiental 2026 ocorreu no Centro de Convenções Frei Caneca, na capital paulista.
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Por Keli Vasconcelos – Jornalista
Foto: Sofia Jucon




