A Pesquisa Anual da Indústria da Construção, divulgada em junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024), revela que o setor empregou 2,5 milhões de pessoas, com remuneração média de 2,1 salários-mínimos, sendo 191 mil empresas que injetavam R$ 95,6 bilhões nos bolsos dessa massa trabalhadora. Mas, o setor vem se destacando também nas ações em prol do “lixo zero”.
A construção de prédios encabeçou o ranking (mais neste link), com a contratação de 894,8 mil pessoas. Na outra ponta, o segmento é responsável por 60% dos resíduos sólidos urbanos, 30% do consumo energético e emissões globais, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Eis uma das grandes táticas do setor: unir a jornada ESG e manter seu status, utilizando a inovação em prol do ideal do canteiro de obras mais sustentável. Medidas para redução do desperdício e geração de entulho e demais resíduos sólidos, uso consciente de recursos hídricos, além da tecnologia para mensuração e monitoramento de cada etapa dos projetos já fazem parte da rotina de muitas empreitadas, especialmente quando construtoras e incorporadoras querem apresentar bons resultados em seu report.
Entretanto, os desafios são inúmeros, que vão desde a destinação correta de resíduos até a boa convivência com as comunidades do entorno das construções, o que eleva o emprego de estratégia e conscientização, indo além dos projetos e, literalmente, colocando a mão na massa.
Percepção ainda “míope”
Muito embora as intenções sejam proeminentes, inclusive para obtenção de certificações importantes como GBC Brasil (Green Building Council), a visão desse mercado na perspectiva ESG ainda é considerada “míope”.
É o que aponta um estudo da Saint-Gobain, divulgado pela Exame, que pela primeira vez ouviu instituições financeiras em diferentes países sobre o tema. Espantosamente, somente 47% dos profissionais entrevistados acreditam que a construção sustentável gera mais valor econômico do que a tradicional, com destaque para percepção baixa na Europa e na Ásia-Pacífico.
A boa notícia é que o Brasil vê como prioridade o tema: 76% dos stakeholders e cidadãos, acima da média global, mas somente 35% acreditam que a construção sustentável gera mais valor econômico do que os métodos já utilizados.
Lixo zero: saindo do discurso
Boas práticas estão despontando no setor brasileiro, a exemplo da incorporadora AGL, com operações em Curitiba (PR), que recentemente conseguiu alcançar a marca de zerar o envio das sobras das obras para aterros, graças a um sistema que combina separação na origem, rastreabilidade e parcerias com operadores especializados.
Liz Magnaguagno, engenheira de Planejamento da empresa, explica que entre as aplicabilidades, o reúso de água de chuva, caçambas rastreáveis e controle de consumo energético, além do planejamento operacional e engajamento dos times para a redução de emissões de CO₂ antes mesmo do início das obras.
A escolha de materiais de baixo carbono e fornecedores locais, bem como a metodologia colaborativa de modelagem 3D (plataforma BIM) para reduzir erros contribuem nessa tarefa. “Trabalhamos com cerca de 80% de fornecedores locais. Além de impulsionar a economia regional, isso encurta distâncias, diminuindo as emissões durante o transporte dos materiais”, endossa a especialista.
“Quando existe um modelo organizado, o resíduo deixa de ser tratado como descarte e passa a fazer parte do processo produtivo. Há padronização na coleta, documentação e rastreamento. Em obras convencionais, é comum a mistura de materiais e a ausência de controle sobre a destinação final”, detalha Janaína Pissinati, gerente comercial da Forte Coleta de Resíduos, uma das prestadoras da incorporadora.
Da tinta ao tijolo
Pensar nos materiais a serem utilizados na construção também faz parte do processos. Um exemplo vem da professora de engenharia Gabriela Medero, brasileira que atua em um grupo de pesquisa na Universidade Heriot-Watt, em Edimburgo, que desenvolveu o K-Briq, um tijolo composto por cerca de 90% de resíduos de construção.
Detalhe: o produto não passa pelo processo de queima, sendo capaz de gerar menos de um décimo das emissões de carbono de um tijolo comum e ainda transforma resíduos que seriam descartados em novos materiais de construção. “Passei muitos anos pesquisando materiais de construção e me preocupei com o fato de que as técnicas modernas exploram matérias-primas sem considerar o impacto ambiental”, frisou a pesquisadora, ao site Dezeen.
“A indústria envia mais de 800 milhões de toneladas de resíduos para aterros na Europa todos os anos, com um enorme custo para si própria e para o ambiente”, acrescenta Sam Chapman, que juntamente com Medero fundaram a startup Kenoteq. A ideia recebeu apoio do Zero Waste Scotland, fundo voltado para incentivar iniciativas de economia circular na Europa e atualmente é comercializada no Reino Unido.
Já em Pernambuco, a Tintas Iquine, do Grupo Iquine, reforça sua presença em projetos sociais e ambientais alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O destaque fica para a plataforma de cursos profissionalizantes Iquine IClub, que em 2025 impactou mais de 12 mil pintores e promoveu 30 mil treinamentos.
Para a empresa, o pintor é uma prioridade: “A frente social e de capacitação é alicerçada por nossa excelência técnica e investimentos constantes em Pesquisa e Desenvolvimento”, comenta, ao Diário de Pernambuco, Leonardo Vasconcelos, diretor Comercial e de Marketing do Grupo.
Por Keli Vasconcelos – Jornalista
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