As recorrentes instabilidades geopolíticas no Estreito de Ormuz — corredor marítimo por onde passam cerca de 20% do petróleo consumido no planeta e volumes expressivos de gás natural liquefeito — voltaram a acender o alerta sobre a vulnerabilidade da dependência global de combustíveis fósseis. No entanto, o que se apresenta como um gargalo para a economia mundial abre uma avenida de oportunidades para o Brasil se consolidar como um hub estratégico de segurança energética, com a bionergia, e alimentar.
Com uma matriz energética majoritariamente renovável e capacidade crescente na produção de biocombustíveis, o país vem atraindo os olhos do mercado internacional pela sua capacidade de oferecer escala com menor pegada de carbono. Na visão de Daniel Barbosa, CEO da Fex Agro, o atual cenário fragmentado redesenhou o valor da estabilidade no comércio exterior.
“Em um ambiente de maior incerteza geopolítica, países capazes de oferecer energia em escala, previsibilidade e menor exposição a combustíveis fósseis passam a ocupar posição estratégica. Nesse cenário, o Brasil reúne características raras: liderança agrícola, matriz energética renovável e capacidade crescente de produção de biocombustíveis. Em um ambiente global mais fragmentado, previsibilidade passa a ter valor semelhante ao da produtividade”, destaca Barbosa.
Safra recorde impulsiona bioenergia no agro
Os dados mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) chancelam esse protagonismo. A safra brasileira de grãos 2025/26 está estimada no recorde histórico de 358 milhões de toneladas. A soja lidera o volume com aproximadamente 180 milhões de toneladas, enquanto o milho deve atingir cerca de 132 milhões de toneladas.
A relevância dessas superestações vai muito além do prato. O avanço tecnológico e a expansão dessas culturas dão tração a cadeias industriais de alto valor agregado, como o biodiesel, o biometano, o etanol de cereais e o Combustível Sustentável de Aviação (SAF). O milho, por exemplo, tem sido a grande mola propulsora das usinas de etanol no Centro-Oeste brasileiro, reduzindo a dependência fóssil e interiorizando o desenvolvimento industrial.
Tabela: Projeções de Produção e Destino Energético (Safra 2025/26)
| Cultura | Projeção de Produção | Impacto na Matriz Energética / Mercado |
| Soja | ~180 milhões de toneladas | Base para a expansão do biodiesel e exportação concentrada (China) |
| Milho | ~132 milhões de toneladas | Consolidação do etanol de cereais e fortalecimento da proteína animal |
| Total Grãos | 358 milhões de toneladas | Recorde histórico; base para a transição global para o SAF e biometano |
Desafios de custeio e a expectativa pelo Plano Safra
Apesar do desempenho técnico impecável dentro da porteira, o produtor rural brasileiro enfrenta um ciclo financeiro complexo. O custo do capital permanece elevado e insumos essenciais — como fertilizantes e defensivos —, somados aos custos logísticos, continuam pressionando as margens de lucro.
Nesse cenário de seletividade de crédito por parte de bancos e tradings, o setor aguarda com forte expectativa o anúncio do Plano Safra 2025/26, previsto para o próximo dia 1º de julho. As diretrizes do governo serão cruciais para definir taxas de financiamento e subvenções. Paralelamente, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) tem liderado a defesa pelo fortalecimento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), visando proteger os investimentos diante da crescente volatilidade climática.
Segundo o CEO da Fex Agro, a governança e a eficiência operacional passaram a ser os novos divisores de águas para a concessão de capital e o sucesso do negócio. “O capital continua disponível, mas a seletividade cresceu. Governança, garantias e capacidade de gestão tornaram-se diferenciais competitivos. A questão central para os próximos anos não será apenas produzir mais. Essa capacidade já foi demonstrada. O desafio será converter escala produtiva, segurança alimentar e potencial energético em ganhos sustentáveis de competitividade e renda”, avalia Daniel Barbosa.
Se o ecossistema do agronegócio conseguir coordenar a eficiência técnica de campo com mecanismos sólidos de mitigação de risco e inovação financeira, o Brasil estará pronto para liderar a transição global de baixo carbono. Como conclui o executivo, poucos países reúnem tantas condições favoráveis para ditar o ritmo da economia sustentável do futuro.
Imagem criada por IA/FexAgro




