Como anda a jornada ESG na sua empresa? Ela tende a ser mais voltada ao ambiental, ao social, à governança, ou as três letras andam juntas? Pois essa sigla, que atualmente é determinante para a prosperidade e reputação corporativa, dever encarada como um conjunto de práticas, e não apenas um instrumento a ser cumprido ou mesmo que essas letras sejam descoladas umas das outras.
Falando em critérios, uma das novidades, que inclusive já noticiamos anteriormente, é a obrigatoriedade das companhias de capital aberto que atuam no Brasil em divulgar informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, conforme estabelecido na Resolução 193 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Para Fernanda Claudino, advogada especialista em gestão ambiental e atuante no mercado de capitais, no campo jurídico e de sustentabilidade em companhias abertas, as organizações não vão se enquadrar só porque há essa e demais leis.
Ao Estadão, a Claudino explica que o conceito ESG teve um momento de grande ascensão e essa é a primeira vez que enfrenta um grande revés. Ela cita o período da pandemia em que se descortinou o cenário de desigualdade social, provocando, consequentemente, o ativismo e mostrando às empresas a urgência de uma mudança de mentalidade para agir com ênfase no ambiental, na governança e na diversidade.
Ela destaca ainda as corporações já perceberam que o ESG “não é só para ser uma coisa bonitinha”, pois antecipa os riscos e auxilia na tomada de decisão.
Bom desempenho ESG
Outro ponto é o nível de desempenho e a continuidade dessa jornada. Um levantamento do Datafolha e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima, saiba mais aqui) revela que 56% das gestoras brasileiras têm alguma estrutura dedicada às práticas ESG em seus processos e 38% delas afirmam ter excluído ou deixado de investir em ativos por conta de mau desempenho nesse critério.
“Em 2025, a média geral de importância dada à sustentabilidade ficou em 7,9, uma nota alta, ainda que com leve queda em relação aos 8,2 registrados na edição anterior. Os resultados indicam que a sustentabilidade segue como tema valorizado pelas instituições, ainda que haja uma leve mudança nas percepções – o que pode refletir uma abordagem mais crítica ou ponderada sobre o tema”, informa o relatório.
Cacá Takahashi, diretor da Anbima e coordenador da Rede Anbima de Sustentabilidade, também em entrevista ao Estadão, frisa que as grandes instituições conseguem ter aporte para manter times focados nessa área, integrando de maneira mais profunda o conceito aos processos. Já nas pequenas, essas capacidades enfrentam desafios, que vão do equilíbrio com outras prioridades do negócio, passando pela contratação de pessoas especialistas, e, obviamente, os custos.
Outro relatório, este elaborado pela Nexus em parceria com o Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado de São Paulo (Sindiplast), voltados aos consumidores, mostra que 48% dos brasileiros confiam mais em marcas que investem na proteção do meio ambiente.
O percentual empata com a geração de empregos, citada por outros 48% como fator decisivo para legitimar a atuação de empresas e indústrias. “O dado reforça o peso da agenda ESG na construção da reputação corporativa no país”, informa o documento, divulgado pelo Terra.
“A consciência ambiental está em crescimento, mas é preciso avançar. Para isso é necessária a união de esforços entre as ações da indústria, as políticas públicas e o engajamento da população em torno da sustentabilidade e da economia circular”, acrescenta Paulo Teixeira, diretor-superintendente do Sindiplast.
ESG na auditoria
A digitalização desses está sendo uma aliada para auditar esses processos e o uso da Inteligência Artificial (IA) está no centro das decisões financeiras e do planejamento estratégico das companhias.
Muito embora isso seja um avanço, a confiança excessiva em algoritmos criou um abismo entre o reporte técnico e a realidade das operações. “As empresas necessitam de curadoria sênior para validar processos automatizados, protegendo a reputação, sem travar a agilidade da gestão. O executivo hoje atua como um validador de consistência, pois tem o repertório para interpretar o que os indicadores não mostram, especialmente diante de auditorias e normas globais que exigem cada vez mais precisão”, endossa Roberto Dranger, sócio-fundador da Átina Consulting, especializada em conectar profissionais seniors (+50) a empresas em crescimento.
E isso é constatado em números: segundo uma pesquisa da Deloitte, 74% dos CEOs enxergam a IA generativa como o caminho para aumentar a eficiência operacional, mas somente 30% afirmam que suas organizações possuem a governança para gerenciar riscos éticos e, para piorar, só 37% acreditam que suas equipes dominam a tecnologia com segurança.
“Ao adotar essa curadoria, é possível identificar erros que a IA ignora por falta de contexto histórico ou sensibilidade política. É a garantia de que o reporte de sustentabilidade seja uma prova de resiliência, e não apenas uma entrega protocolar”, conclui Dranger.
Por Keli Vasconcelos – Jornalista
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