A baixa adesão voluntária das empresas brasileiras aos novos padrões internacionais de reportes de sustentabilidade indica que o país ainda enfrenta desafios relevantes na consolidação das práticas ESG. A avaliação é de Eliana Camejo, conselheira de Administração e vice-presidente da Sustentalli – Cooperativa de Especialistas em Sustentabilidade e Governança, ao analisar o encerramento do prazo previsto na Resolução nº 193 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em 31 de dezembro de 2025.
A norma permitia que companhias abertas e fundos de investimento optassem, de forma antecipada, pela divulgação de relatórios de sustentabilidade alinhados às normas IFRS S1 e S2, que estabelecem critérios para a integração de riscos, oportunidades e impactos socioambientais à estratégia, à governança e à gestão financeira das organizações.
Embora a adoção obrigatória esteja valendo para exercícios iniciados a partir de 1º de janeiro de 2026, com divulgação dos dados prevista apenas para 2027, Eliana destaca que o tempo efetivo de preparação é significativamente maior. “A construção de inventários de emissões, a estruturação da governança climática, o mapeamento de riscos financeiros e a revisão de controles internos exigem, em média, de 12 a 18 meses de trabalho”, afirma.
Reportes voluntários
Dados divulgados pela própria CVM no primeiro semestre de 2025 reforçam esse diagnóstico. Entre cerca de 700 companhias abertas no país, apenas quatro haviam aderido voluntariamente aos novos padrões. Das 291 empresas que responderam à pesquisa, somente 17 sinalizaram intenção de adoção até o fim do ano, indicando que muitas organizações ainda subestimam a complexidade do processo.
Segundo Eliana, o risco vai além do cumprimento regulatório. A partir de 2026, investidores, bancos, seguradoras e auditorias devem ampliar a exigência por evidências objetivas de gestão de riscos climáticos e de sustentabilidade financeira no longo prazo. “Empresas que não estiverem preparadas tendem a enfrentar maior custo de capital, restrições de crédito e questionamentos sobre a qualidade da sua governança”, pontua.
A especialista ressalta que os impactos da transição também se refletem no comportamento do consumidor. Pesquisa recente da Kantar mostra que 51% dos jovens da Geração Z no Brasil afirmam que optar por produtos e serviços sustentáveis está alinhado aos seus valores. Entre os millennials, o índice sobe para 58%, reforçando a pressão por coerência entre discurso e prática empresarial.
Competitividade
Para Eliana Camejo, o cenário marca o fim de compromissos genéricos e ações superficiais. “A sustentabilidade passa a ser medida pela capacidade das organizações de identificar, mensurar e integrar riscos climáticos e impactos socioambientais ao núcleo das decisões estratégicas, influenciando investimentos, governança e a perenidade dos negócios”, conclui.
Diante desse contexto, a especialista avalia que o movimento é inevitável. A escolha das empresas, agora, é entre antecipar-se e liderar a transição ou reagir sob pressão, com riscos concretos à competitividade em um ambiente cada vez mais orientado por transparência, gestão de riscos e geração de valor sustentável.
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