Os apagões prolongados que atingiram comunidades como Sapirara, Coqueiro Alto e Trancosinho, em Trancoso, no sul da Bahia, evidenciaram uma contradição estrutural do Brasil: mesmo em um dos destinos turísticos mais elitizados do país, milhares de moradores permaneceram dias sem acesso à energia elétrica. A interrupção do serviço afetou mais de quatro mil famílias e resultou em protestos e na interdição da BA-001, principal via de acesso à região.
Para a advogada especializada em transição energética Irini Tsouroutsoglou, o episódio vai além de uma falha pontual. “O que ocorreu em Trancoso revela um problema estrutural. Áreas de alta visibilidade econômica convivem com comunidades vizinhas que ainda enfrentam precariedade no acesso a um serviço essencial para dignidade, segurança e desenvolvimento”, afirma.
Combate aos apagões
A concessionária atribuiu as falhas a sobrecargas na rede e ligações clandestinas. Na avaliação de Irini, essa explicação evidencia a ausência de planejamento de longo prazo. “A informalidade é consequência de redes fragilizadas e de uma transição energética que avança no discurso, mas não chega de forma justa e efetiva às comunidades”, destaca.
Segundo a advogada, o impacto social dos apagões reforça que energia não é apenas uma questão técnica. “Energia é política pública, inclusão social e base para qualquer estratégia de desenvolvimento sustentável.”
Atuando no setor, Irini ressalta o paradoxo brasileiro no debate energético. “Não existe transição energética bem-sucedida em um país onde ainda se bloqueiam estradas para reivindicar luz. Falar de descarbonização e inovação sem garantir acesso e confiabilidade aprofunda desigualdades.”
Para ela, Trancoso se torna símbolo de uma urgência nacional. “A transição energética precisa ser, antes de tudo, justa, garantindo que desenvolvimento e sustentabilidade sejam direitos de todos, e não privilégios de poucos.”
Foto: Prefeitura de Porto Seguro/Ascom




