Como parte da imersão do SITEC Ambiental 2026 – Seminário de Tecnologia e Soluções Ambientais para a Indústria (confira a cobertura neste link), o Portal TECNEWS faz um aprofundamento de cada palestra pertencente aos painéis realizados nos dois dias de evento (18 e 19 de março).
O painel Eficiência Hídrica – Cada Gota Conta: reduzindo custos e protegendo seu negócio teve a palestra intitulada “Gestão de Recursos Hídricos: Reaproveitamento de Água na Indústria”, proferida Álvaro Teixeira, especialista em água e efluentes e coordenador de novos negócios da Cetrel (mais aqui), que discorreu sobre tais sistemas e soluções hídricas no setor industrial.
Reaproveitar por meio de modelos descentralizados (entenda neste link) como BOT (Build, Operate and Transfer), BOO (Build, Own, Operate), AOT (Acquire, Operate and Transfer) e AOO (Acquire, Operate and Own) são caminhos para evitar desperdícios, usar com inteligência esse recurso e o reúso é também uma maneira de estar em consonância regulatória.
“Quando a gente olha para o cenário global, vê uma crescente preocupação com a gestão sustentável da água em diversos segmentos da indústria. O mundo também tem aumentado as regulamentações, tanto de controle ambiental para o despejo dos efluentes, como também pressionando até para indicadores relacionados ao reúso da água. Na Europa, por exemplo, aumentaram a restrição do padrão de lançamento. É aí que a indústria olha e fala, ‘mas se é para eu tratar desse jeito, é melhor eu reusar’. Então, indiretamente, a indústria é motivada a produzir água de reúso”, salientou em sua apresentação.
O especialista também destacou o Marco Legal do Saneamento, a busca pela universalização da água e tratamento de esgoto, bem como a crise e estresse hídricos que permearam os últimos anos no país, especialmente na região Sudeste, o que levou as indústrias a adotarem sistemas de reúso para diminuir a dependência, reduzir custos e reduzir impactos ambientais.
“Quando observamos o risco hídrico no Brasil, percebemos que já não temos muita água disponível onde nossas operações estão instaladas. Já não tem água boa disponível porque tivemos inúmeros problemas, inclusive a contaminação de mananciais. A tendência é a gente precisar cada vez de mais água”, pontuou.
Essa demanda é uma problemática global, especialmente no que se refere a tecnologias como a Inteligência Artificial e armazenamento de dados. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo global por Data Centers está atualmente em 560 bilhões de litros por ano, devendo alcançar 1,2 trilhão de litros até 2030.
“Temos essa pressão por demanda aumentando e de onde a gente vai tirar esse 1 trilhão de litros ao ano de novas demandas de água para abastecer todo mundo? População, uso doméstico, uso urbano, as indústrias, irrigação, agropecuária, que também consomem muita água. Então, a gente precisa olhar para esse panorama e buscar soluções”, reforçou Teixeira.
Água fácil, água difícil
Teixeira destacou também as discrepâncias da disposição e disponibilidade de água em determinados pontos do país, com regiões mais abastecidas, mas sem uma demanda aparente ante outras com o inverso. “Antes tínhamos o conceito de água fácil e água difícil, ou seja, tínhamos a água como uma arquitetura superficial, em que você só coloca uma bomba, um adutor, um reservatório e a água está disponível para uso. Hoje, a gente não tem mais, tudo está mais difícil”, resumiu.
Além da desigualdade, outro aspecto negativo é a qualidade da água, outro desafio global, que vai desde a dessalinização até o tratamento dos rios e demais aquíferos. “Há dois mil anos, as dificuldades que os romanos tinham em obter água, já não são mais vistas por nós. Mas ainda temos muitas formas de água difícil a serem exploradas, como a água para reúso, advinda dos esgotos tratados e fontes alternativas. No entanto, precisamos de conhecimento e, principalmente, da coragem dos romanos para transformar completamente a forma como a sociedade atual deve lidar com a água”, salientou.
Para o gestor, é pertinente olhar para os usos da água como uma gestão proativa e sustentável, com planejamento e não apenas para remediação, buscando a sustentabilidade não só ambiental, mas também do negócio, inclusive em sua modelagem e quais impactos reverberam nesses recursos hídricos. Exemplificou com o modelo clássico do ciclo hidrológico sem a interferência antrópica. A partir do momento em que uma indústria é instalada, o especialista endossa que é preciso repensar todo esse ciclo, com soluções que demandam desde a regularizar vazões até a estação de tratamento (ETA).
“Muitas vezes esquecemos que tratamento de água é um cenário do ser humano, porque na natureza eu não tinha essa preocupação de tratar essa água para fins potáveis. Água potável é um conceito do ser humano colocado numa portaria no Ministério da Saúde. Isso é água potável. Na natureza, existe água bruta de boa qualidade, mas ela não é potável”, disse.
Água tratada em aplicações industriais
O controle de perdas e integração tecnológica garantem maior eficiência, redução de custos e melhora do desempenho regulatório. Esses são os pontos discutidos por Teixeira quando o assunto é a água nas aplicações industriais, com destaque para o tratamento de efluentes e reúso estratégico.
No caso, essa reutilização reduz a captação e o descarte, aumentando eficiência e sustentabilidade nos processos. “Quando eu olho para o meu processo produtivo e vejo como eu posso reaproveitar o efluente, fazendo um fluxograma desses processos, eu consigo obter alternativas de reúso de água. É um tratamento simples? É só um tratamento primário? É um tratamento biológico, é por osmose reversa? Preciso aumentar minha rota tecnológica? Hoje temos tecnologias disponíveis, seja gerando a água na indústria ou no meio urbano sanitário, seja tratando e encaminhando isso para utilização como reúso em várias modalidades: urbana, agrícola, ambiental, agrícola, industrial”, elencou em sua fala.
Um case apresentado pelo representante da Cetrel foi a parceria com a Braskem, que a utilizou no Polo Industrial Petroquímico de Camaçari (BA), com economia hídrica de 4 bilhões de litros/ano em anos chuvosos – o equivalente ao consumo de um município de 150 mil habitantes, resultando em premiações para ambas corporações.
O Polo Industrial de Camaçari é considerado um dos maiores complexos industriais integrados do hemisfério sul e a petroquímica utilizou as soluções da Cetrel com o intuito de reduzir a dependência de mananciais que também atendem à Região Metropolitana de Salvador (como a bacia do Rio Joanes/Paraguaçu) e aumentar a resiliência hídrica por meio de simbiose industrial, ou seja, recuperar correntes aptas ao reúso e devolvê-las ao parque fabril.
O projeto tinha como meta na primeira fase entre 500 a 800 m3 por hora de água de reúso fornecida ao polo, com um volume poupado e estimado de 4 bilhões de litros por ano, podendo chegar a 7 bilhões de litros por ano nos anos chuvosos. Por meio de planejamentos e operações que envolveram, inclusive o modelo MLD (Minimal Liquid Discharge, ou Descarga Líquida Mínima), objetivos foram exitosos: “Conseguimos alcançá-los e esses 7 bilhões representam o abastecimento por um ano de uma cidade de 150 mil habitantes. O que precisava daquele momento para aliviar a pressão do manancial que abastecia a população, e esse projeto conseguiu”, celebrou o executivo.
“Cuidar da água não é apenas proteger o ambiente. Esse discurso não é de ambientalista apenas – é fortalecer a competitividade e o futuro da indústria. Portanto, se a indústria não parar e olhar para cuidar da água, ela não vai ter o que produzir”, finalizou Teixeira.
Com o tema central “A jornada da sustentabilidade que transforma esforços e investimentos em propósito”, o SITEC Ambiental 2026 ocorreu no Centro de Convenções Frei Caneca, na capital paulista.
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Por Keli Vasconcelos – Jornalista
Foto: Sofia Jucon




