Sustentabilidade

SITEC: Instituto Totum mostra complexidades e oportunidades do mercado de carbono

SITEC Instituto Totum mostra complexidades e oportunidades do mercado de carbono - Fitec Tec News

Como parte da imersão do SITEC Ambiental 2026 – Seminário de Tecnologia e Soluções Ambientais para a Indústria (confira a cobertura neste link), o Portal TECNEWS faz um aprofundamento de cada palestra pertencente aos painéis realizados nos dias de evento (18 e 19 de março). O segundo dia de evento (19) teve como mote “Do propósito ao impacto: como liderar o mercado com descarbonização e compromissos ESG”, cujo eixo central da primeira rodada de conversas da manhã falou de “Descarbonização Industrial – Construindo o Futuro Net Zero: redução de emissões e competitividade” e trouxe um panorama das oportunidades no setor.

A primeira palestra, intitulada “Créditos de Carbono: Transformando redução de emissões em novas fontes de receita”, foi presidida por Fernando Lopes, diretor do Instituto Totum, que, de maneira sincera, enfatizou que tratar de créditos de carbono não é easy business (do inglês para “negócio fácil”).

Para tanto, Lopes fez um panorama sobre o que é o gás carbono e demais gases, e como os créditos são calculados, o que envolve realizar projeções de mitigação, compensação, bem como a importância entender essa fundamentação para, inclusive, evitar tais emissões.

É interessante que recebemos em nosso escritório pedidos de pessoas que querem crédito de carbono em suas pequenas propriedades, de uns cinco hectares, e se questionam: ‘Quantos milhões vou ganhar?’ O único que alega ter faturado milhões foi o [Daniel] Vorcaro e nem sabemos se realmente ganhou, porque isso não algo simples”, iniciou Lopes em sua apresentação.

 

Oportunidades  e metodologias

 

O especialista deixou claro o entendimento sobre a complexidade do mercado e medições para obtenção dos créditos, o que envolve uma série de fatores, como os gases provenientes de fertilizantes, da queima de biomassa, os exclusivamente industriais e os de refrigeração. “O que faz a usina do etanol? Produz um combustível. Quando há a queima o etanol, tem uma cadeia de carbono um pouco mais complicada que a do álcool, mas é liberado na atmosfera CO₂. Mas é menos prejudicial, não contribui tanto para o aquecimento global”, disse.

Também destacou as formas de mensuração e reporte das emissões, atualmente feita por meio do sistema GHG Protocol (confira mais sobre o assunto no Portal TECNEWS): “Esse método é usado por 95% das organizações e governos mundiais. Considero que tem os seus problemas, mas é ainda o melhor que temos para isso, especialmente porque atualmente é compartilhado com a ISO, ou seja, temos normas mais robustas para declarar as emissões”, salientou.

Lopes continuou sua fala frisando que tais metodologias são norteadores para reportes como as de emissões diretas, bem como o que não diretamente emitido (escopos 1, 2 e 3). “Envolve o que você não emite, mas tem uma emissão de fora, como, por exemplo, pela decisão de compra de energia elétrica”, endossou.

 

Eletromobilidade

 

Por falar em eletricidade, Lopes aprofundou a compreensão sobre o mercado livre de energia em sua palestra no SITEC, o que já se inicia na escolha da fonte de energia a ser utilizada. “Então, você pode considerar uma fonte de energia renovável ou não renovável. Apesar dessa emissão não estar sendo executada, não acontece na sua indústria, acontece na nas concessionárias”, endossou.

O especialista foi enfático ao afirmar das responsabilidades compartilhadas nas emissões, outra complexidade que recai na declaração desses impactos. “Por exemplo, se você usa um equipamento elétrico mais eficiente, que vai ser o próximo a sua realidade, você não está reduzindo a tua emissão direta, porém, você está reduzindo a tua emissão de escopo 2, que você vai usar menos energia. Para vocês terem uma ideia, cada 1 megawatt de energia que a gente usa no Brasil, a indústria que usa essa energia, ela gera mais ou menos, um grande número. Isso varia ano a ano”, arrematou.

Usou como exemplo, um caso de uma empresa que decide mudar toda a sua frota de veículos para a versão elétrica. Embora seja algo possível, esses veículos não serão descartados, mas repassados a outros compradores, ou seja, é repassada a responsabilidade de compensar essa poluição emitida. “Uma empresa tem uma frota própria de dez carros flex, que estão consumindo combustível e geram emissões de gás a efeito de estufa (GEE). A vantagem, nas contas do proprietário e no local onde a empresa fica é a gasolina. E são dez veículos que rodam 30 mil km/ano cada. Aí, decide-se trocar por dez elétricos”, elucidou.

E prosseguiu: “Esses vão consumir por volta de 0 a 25 kWh por quilômetro/calor. Vamos às contas: quanto se emitia de GEE? E agora, que trocou a frota? Porque chegamos à pergunta: o que o empresário fez com os veículos flex? Estão em algum lugar rodando, não é? Isso é o que chamamos de leakage, vazamento. Ou seja, não se pode pleitear crédito de carbono disso, já repassou o problema para outro, simplesmente foi de uma parte para outra”, pontuou.

 

Protocolos

 

Além do GHG Protocol e da ISO, Lopes também citou outras metologias que estão na mesa das mensurações, como a AMS-III.C. (Emission reductions by electric and hybrid vehicles), do UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima), e da elaboração de projetos, como PDD (Project Design Document).

Lopes apontou com cases do uso de energias renováveis, como em Fernando de Noronha (PE), que está em andamento nesse quesito. “A eletricidade nessa região é ainda proveniente de diesel, ou seja, se trocar o carro elétrico ainda não é vantajoso, mesmo com a solar em evidência. Baterias são necessárias para armazenar, mas é ainda muito caro”, ressaltou.

“Mercado de carbono envolve uma governança muito complexa e que, sim, está sujeita a erros. É preciso consultar as metodologias. Não é easy money [dinheiro fácil]. Trabalho com isso há 20 anos e eu já perdi mais que ganhei dinheiro. Fiz muitos projetos baseados em taxas de sucesso, que depois não aconteceram”, concluiu o diretor do Instituto Totum.

Com o tema central “A jornada da sustentabilidade que transforma esforços e investimentos em propósito”, o SITEC Ambiental 2026 ocorreu no Centro de Convenções Frei Caneca, na capital paulista.

 

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Por Keli Vasconcelos – Jornalista

 

Foto: Sofia Jucon

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