Já falamos anteriormente aqui sobre a importância da economia circular na área têxtil e como esses produtos não atuam somente na questão ambiental, mas também na qualidade de vida – e econômica – das pessoas. Graças a combinação de tecnologia e inovação, esses tecidos estão tomando um novo rumo e voltando para a Indústria como insumos na produção de novos itens com vantagens como o poder antichamas. Trata-se das vestimentas dos bombeiros, que por essência necessitam de proteção contra o fogo, produtos químicos, além de atributos de resistência e durabilidade.
Após o fim de sua validade, muitas vezes esses materiais se tornam inservíveis e precisam de uma correta destinação. Na Espanha, a fabricante Hilaturas Arnau em parceria com Tèxtils.CAT – cluster de materiais têxteis avançados da Catalunha –, conduziram o projeto Re-HiTechTex, em que são extraídas fibras de uniformes de bombeiros usados.
Ao serem misturadas com resíduos têxteis pré-consumo, convertem-se em tecidos resistentes a chamas, que, por sua vez, voltam ao mercado em produtos (mais informações neste link).
A ação faz parte do programa InTransit, fundado pela União Europeia e visa fomentar Pequenas e Médias Empresas (PMEs) dos setores têxtil, aeroespacial, manufatura e de construção, tornando-as mais sustentáveis e tecnologicamente avançadas por meio de um modelo de negócios social e resiliente.
Vestimentas de bombeiros e poder retardante
Um dos destaques do Re-HiTechTex é o poder retardante que esse material possui após manufaturado. O parâmetro chamado Índice Limite de Oxigênio (LOI, sigla em inglês) mede a quantidade de oxigênio necessária para manter um material em combustão, sendo que quanto maior o LOI, mais resistente ao fogo é o material.
No caso do produto consolidado no projeto, o índice atingido foi de 45. “Materiais com LOI abaixo de 21 queimam facilmente no ar ambiente, enquanto um LOI acima de 26 indica que o material é autoextinguível”, reforçou o comunicado.
Esse feito abre portas para a circularidade das vestimentas, conhecidas como os Equipamentos de Proteção em demais setores, como uniformes industriais, endossou a nota.
Vale lembrar que no Brasil, há empresas que realizam, sob demanda, a reciclagem de fibra para-aramida, ou Fio de Kevlar (saiba mais), a partir de coletes a prova de balas usados, transformando-as em fios que retornam ao setor têxtil.
Mais parcerias, mais produtos circulares
Um acordo entre Hong Kong Research Institute of Textiles and Apparel (HKRITA) e as empresas Jeanologia (Espanha) e Looptworks (EUA) tem como propósito acelerar a reciclagem a larga escala de têxteis com mistura de fibras.
Segundo matéria do site Portugal Têxtil, o HKRITA desenvolveu a Green Machine 4.0, versão da tecnologia de reciclagem hidrotérmica, que permite recuperar poliéster com um grau de pureza igual ou superior a 98% a partir de artigos compostos por algodão e poliéster, sem recorrer a processos considerados nocivos.
Isso permite criar um modelo replicável para aumentar a reciclagem de têxteis atualmente difíceis de valorizar. No acordo, a Jeanologia será responsável pelo fornecimento de equipamentos industriais de alta pressão, enquanto a Looptworks, que é certificada como B Corp, contribuirá com a sua experiência na transformação de resíduos têxteis pré e pós-consumo em fibras recicladas certificadas segundo o Global Recycled Standard (GRS).
Um problema a ser combatido no Brasil
O problema da destinação correta de tecidos é uma demanda constante a ser combatida. A Sabesp, concessionária de saneamento em São Paulo, retira mensalmente cerca de 800 toneladas de lixo das redes coletoras e das Estações de Tratamento de Esgoto nos 375 municípios atendidos.
Entre os resíduos estão trapos e tecidos, elevando o risco de vazamentos e aumentando os custos operacionais. “Nos últimos 12 meses, a Companhia realizou 163.992 desentupimentos, muitos deles com impacto no trânsito e necessidade de abertura de vias”, frisa nota da Sabesp.
Porém, muitas boas práticas estão em atividade. Em Santa Catarina, o 1º Batalhão de Bombeiro Militar (1º BBM- CBMSC), de Florianópolis, firmou uma parceria recentemente com a Associação Alberto de Souza, responsável pelo Projeto Rumo Certo, além do SEBRAE e da Confederação de Dirigentes Lojistas (CDL).
No acordo, o CBMSC envia os uniformes dos bombeiros ao projeto, que serão confeccionadas na oficina de corte e costura voltadas às pessoas em situação de vulnerabilidade assistidas, tornando-se ecobags, retornando ao Corpo de Bombeiros.
A ação faz parte das atividades da corporação, que comemora seu centenário em 2026. “Mais do que o reaproveitamento de materiais, a ação tem caráter formativo. A iniciativa também simboliza a valorização de um momento histórico da corporação, promovendo a integração entre instituições públicas, setor produtivo e projetos sociais”, afirma comunicado.
Por Keli Vasconcelos – Jornalista
Foto: CPG/Divulgação




