Por: Fabio Rubens Soares
O Brasil ocupa posição privilegiada no cenário global de energias renováveis, em função de sua abundância de recursos naturais e da consolidação de cadeias produtivas baseadas na biomassa, como o etanol e o biodiesel. Nesse contexto, o biogás e o biometano despontam como alternativas estratégicas capazes de integrar geração de energia, gestão de resíduos e redução de emissões de gases de efeito estufa. O biogás é produzido a partir da digestão anaeróbia de matéria orgânica, sendo composto majoritariamente por metano e dióxido de carbono, enquanto o biometano corresponde ao biogás purificado, com elevado teor de metano e características compatíveis com o gás natural fóssil, podendo ser utilizado em aplicações industriais, veiculares e na geração de energia.
O potencial brasileiro para produção dessas fontes é expressivo e, ao mesmo tempo, subaproveitado. Estimativas recentes indicam que o país possui potencial para produzir cerca de 84,6 bilhões de Nm³ por ano de biogás, o que poderia ser convertido em aproximadamente 44 bilhões de Nm³ de biometano. No entanto, a produção efetiva ainda é reduzida: em 2024, foram gerados cerca de 4,7 bilhões de Nm³ de biogás, o que corresponde a apenas 5,6% do potencial nacional, e aproximadamente 0,67 bilhão de Nm³ de biometano, ou cerca de 1,5% do potencial estimado. Esses números evidenciam um enorme espaço para crescimento e indicam que o país ainda está longe de explorar plenamente essa fonte energética.
Dados oficiais reforçam esse cenário de baixa utilização. Em 2024, o Brasil possuía uma capacidade instalada de processamento de biogás de aproximadamente 503,6 milhões de m³, com um volume efetivamente processado de 231,6 milhões de m³, ou seja, cerca de 46% da capacidade instalada. No caso do biometano, a produção anual registrada foi de cerca de 81,5 milhões de m³, com crescimento de aproximadamente 8,9% em relação ao ano anterior, concentrada principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste. Apesar desse crescimento, os volumes ainda são modestos quando comparados ao potencial nacional.
O número de plantas também evidencia um setor em estágio inicial, mas em expansão. Em 2025, o Brasil contava com cerca de 18 usinas de biometano autorizadas, com capacidade autorizada de aproximadamente 1,1 milhão de m³ por dia e capacidade total de processamento superior a 2,2 milhões de m³ por dia, além de dezenas de projetos em construção. Além disso, a expansão recente é notável: aproximadamente metade das plantas em operação recebeu autorização apenas a partir de 2024, indicando aceleração recente do setor.
Fatores para a revolução energética
Outro aspecto relevante diz respeito à eficiência ambiental do biometano dentro das políticas públicas brasileiras. No âmbito do RenovaBio, esse biocombustível apresenta uma das melhores notas de eficiência energético-ambiental, com média de aproximadamente 78,35 gCO₂e/MJ, superior à de outros biocombustíveis como etanol e biodiesel. Além disso, por ser produzido a partir de resíduos, 100% do volume é elegível para geração de créditos de descarbonização (CBIOs), o que representa uma vantagem competitiva importante.
Mesmo com esses avanços, o desenvolvimento do setor enfrenta entraves estruturais. O alto custo inicial de implantação das plantas, associado à necessidade de sistemas de purificação e compressão, ainda limita a expansão. A infraestrutura de distribuição também é um gargalo, uma vez que a malha de gasodutos no Brasil é limitada e não atende de forma capilarizada regiões com grande potencial de produção, como áreas agrícolas. Além disso, a competição com o gás natural fóssil, muitas vezes mais barato, dificulta a viabilidade econômica dos projetos sem mecanismos de incentivo adequados.
A comparação com o desenvolvimento do etanol no Brasil evidencia a importância de políticas públicas estruturadas. O sucesso do Programa Nacional do Álcool, iniciado na década de 1970, foi resultado de uma combinação de fatores como subsídios governamentais, financiamento, incentivos fiscais e criação de demanda por meio da obrigatoriedade de mistura à gasolina. De forma semelhante, o biodiesel consolidou-se com a adoção de mandatos de mistura e mecanismos regulados de comercialização. Em ambos os casos, o papel do Estado foi determinante para a criação de mercado e redução de riscos para investidores.
No caso do biometano, observa-se a ausência de uma política equivalente em escala e ambição. Embora iniciativas como o RenovaBio tenham contribuído para a valorização ambiental do combustível, ainda não existe um programa nacional estruturante que estabeleça metas claras de substituição do gás natural ou de expansão da produção. A criação de um programa específico, com metas progressivas e instrumentos de incentivo, poderia acelerar significativamente o desenvolvimento do setor.
A criação de demanda é um elemento central nesse processo. Atualmente, o consumo de biometano ainda é limitado e concentrado em aplicações específicas, como uso veicular ou substituição localizada de gás natural. A adoção de políticas que incentivem ou determinem o uso de biometano em setores estratégicos, como transporte pesado, indústrias intensivas em energia e frotas públicas, poderia criar um mercado mais robusto e previsível. Essa estratégia já se mostrou eficaz no caso de outros biocombustíveis e poderia ser replicada com adaptações para o contexto do gás renovável.
Ativos energéticos
Outro fator essencial é a integração com o agronegócio, que representa o principal vetor de expansão do biogás no Brasil. Estima-se que cerca de 95% do potencial de produção de biometano esteja concentrado nos setores sucroenergético e agroindustrial, especialmente a partir de resíduos como vinhaça, torta de filtro e dejetos animais. Essa característica diferencia o Brasil de muitos outros países e oferece uma vantagem competitiva significativa, permitindo a produção descentralizada e próxima às fontes de geração de resíduos.
Além disso, o setor apresenta forte sinergia com a economia circular, ao transformar passivos ambientais em ativos energéticos. A captura e utilização do metano evitam sua liberação direta na atmosfera, reduzindo impactos climáticos e contribuindo para o cumprimento de metas ambientais. Esse aspecto é particularmente relevante no contexto internacional, em que cresce a demanda por soluções de baixo carbono e por combustíveis renováveis.
Diante desse cenário, é possível afirmar que o Brasil reúne todas as condições para liderar globalmente o desenvolvimento do biometano, mas ainda carece de um ambiente institucional capaz de transformar potencial em realidade. A implementação de políticas públicas consistentes, aliada ao desenvolvimento de infraestrutura, incentivos econômicos e segurança regulatória, será determinante para que o setor alcance escala.
Em síntese, o biogás e o biometano representam uma oportunidade estratégica para o Brasil não apenas diversificar sua matriz energética, mas também promover desenvolvimento sustentável, reduzir emissões e fortalecer sua segurança energética. A experiência bem-sucedida com etanol e biodiesel demonstra que, com planejamento e políticas adequadas, é possível transformar uma alternativa promissora em um pilar consolidado da matriz energética nacional. O desafio, portanto, não é técnico ou de potencial, mas sim de coordenação institucional e visão de longo prazo.

Doutor em Bioenergia pela UFABC e especialista em Recuperação Energética de Resíduos pela Universidade de Boras na Suécia e Universidade de São Paulo. Experiência profissional nas áreas de manufatura, processos de produção, laboratórios e operações de plantas químicas, petroquímicas e desenvolvimento de produtos. Experiência e conhecimento em Qualidade, Segurança de Processos e Saúde Ocupacional. Especialista em Biogás, Biometano e Biocombustíveis em geral. Atualmente é Consultor de Empresas na Enviroservices Bioenergia, Pesquisador Sênior do GBio / IEE / USP e Membro da Comissão Técnica de Energia do CRQ-SP. Compôs a grade de palestrantes do SITEC Ambiental 2026, realizado dias 18 e 19 de março de 2026.




