Como parte da imersão do SITEC Ambiental 2026 – Seminário de Tecnologia e Soluções Ambientais para a Indústria (confira a cobertura neste link), o Portal TECNEWS faz um aprofundamento de cada palestra pertencente aos painéis realizados nos dois dias de evento (18 e 19 de março).
O painel Gestão de Resíduos – da responsabilidade de redução na geração à Economia Circular, cujo eixo central foi “Do problema à oportunidade: resíduo, água e energia – como a gestão ambiental vira lucro”, foi concluído com a palestra Fernando Rodrigues, gerente de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (ABREE), que tratou sobre “Gestão e Descarte Adequado de Resíduos Eletroeletrônicos”.
Na visão do especialista, para um futuro sustentável é preciso investir em logística reversa e economia circular, destacando que as organizações estão mais focadas nesses critérios para estarem em consonância com outro assunto relevante no mercado: o compliance. “As empresas precisam atender uma série de regulamentações. E o concorrente pode estar fazendo a logística reversa e a economia circular, tendo ganhos. Se eu não me atento a isso, posso estar perdendo”, disse em sua apresentação.
Logística reversa dos eletroeletrônicos
Rodrigues frisou também a responsabilidade compartilhada, ou seja, o compromisso também dos consumidores em destinar corretamente os eletroeletrônicos e eletrodomésticos corretamente, considerando-os mais “engajados”. Na outra ponta, as esferas de governo (federal, estadual e municipal) também fazem a sua parte, com a implementação de regulamentações, na fiscalização, seja via órgãos ambientais, seja Ministério Público, porém é ainda um caminho longo a ser percorrido.
“Quando há um ponto viciado de descarte na rua, a pessoa não vai reclamar para o governador, para o presidente, ele vai telefonar para a prefeitura. O município, portanto, tem uma grande participação dentro dessa engrenagem”, frisou.
E continuou: “Mesmo com os avanços, a sociedade civil ainda não sabe direito o que é logística reversa, o que é economia circular. Então, precisamos fazer com que esses resíduos sejam vistos como recursos, para que eles fiquem mais tempo ainda dentro dos processos produtivos, aproveitá-los de uma maneira mais inteligente. Segundo dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA, 2024), o Brasil gerou 384 quilos de resíduos sólidos urbanos, aquilo que a gente gera nas nossas casas, por habitante naquele ano. Isso dá um pouco mais de um quilo por habitante por dia”, enfatizou.
Também apresentou outro dado relevante: de acordo com números das Nações Unidas (ONU, 2024, confira aqui), o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos, e o Brasil está no quinto lugar no ranking de produção, com 2,4 milhões de toneladas. Para Rodrigues, administrar esse montante cada vez mais crescente de resíduos requer além da responsabilidade compartilhada, manejar formas de não geração e tratamento são preponderantes para evitar tal cenário.
“É muito melhor do que você tratar um resíduo é você não gerá-lo, ou seja, é valorizar a minimização da geração. Os eletrodomésticos e eletroeletrônicos têm materiais que podem conter substâncias tóxicas ao meio ambiente, como cádmio e chumbo, que podem filtrar no solo, podem contaminá-lo, podem poluir as águas, podem oferecer, inclusive, risco à saúde humana dependendo do grau de exposição”, esmiuçou.
Embalagens, aterros e cumprimento de legislações
O especialista da ABREE fez um panorama da na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS – Lei nº 12.305/2010) em sua apresentação, frisando também outro ponto que merece atenção, o uso, disposição e descarte de embalagens. E isso começa no questionamento da necessidade desse invólucro: “Em muitos casos, essa embalagem é mais para ser empilhada na gôndola do supermercado que realmente cumprir a função de proteger o produto. Até mesmo as dimensões são diferentes. A caixinha fica linda na gôndola, mas, ambientalmente falando, não faz o menor sentido. E está aí uma possibilidade de melhoria”, salientou.
Mudanças nas decisões de compra também foram destaque na fala de Rodrigues, a exemplo das atualizações de tecnologias, que fazem com que o consumidor precise adquirir um celular novo. O especialista alerta que é preciso verificar se o fabricante e a loja contam com coletores para descarte do item obsoleto, bem como outras maneiras de otimizar o produto considerado antigo, como o compartilhamento.
“Quando você usou pela última vez uma furadeira? A atividade estipulada desse equipamento é em média uns 15 minutos. É muito pouco tempo. Será que vale a pena a gente ter uma furadeira em cada uma das nossas casas? Não é mais inteligente a gente alocar, por exemplo, esse tipo de produto?”, questionou.
Os aterros sanitários também foram citados na palestra, salientando a necessidade dos fabricantes também de um Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS), como parte de um ciclo logístico sustentável, não sobrecarregando esses espaços, bem como cumprindo as legislações vigentes do tema. “Quando há mais jeito de usar um produto, isso se torna um rejeito e vai para os aterros. A lei faz uma distinção muito clara entre os planos de resíduos e a União tem o seu plano, os estados, os municípios também têm e as empresas também têm que ter”, sublinhou.
O papel da ABREE
Fundada em 2011, um ano após a PNRS, a Associação tem como premissa definir e realizar a gestão da logística reversa de produtos eletroeletrônicos e eletrodomésticos pós-consumo no Brasil, garantindo a destinação final adequada.
Isso é feito por meio de contratação, fiscalização e auditoria dos serviços prestados por terceiros, para a implementação de sistemas coletivos de logística reversa, o que inclui a promoção de pontos de recebimento e disseminação de conhecimento (confira matéria sobre o assunto).
“Somos uma entidade sem fins lucrativos criada pelo setor empresarial para resolver essa questão da logística reversa dos eletroeletrônicos e também das suas embalagens. Atualmente, 58 empresas associadas à ABRE que representam mais de 200 marcas do setor”, explicou Fernando Rodrigues.
Em números, a entidade já recuperou mais de 190 mil toneladas de eletroeletrônicos e eletrodomésticos, do mouse a geladeira, com mais de 7 mil pontos de recebimento espalhados em mais de 1,5 mil municípios brasileiros. Também realizam ações em estabelecimentos de ensino, por meio de educação ambiental e gincanas, passando por estados como São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal, e somente em 2025 foram mais de 100 escolas participantes. “As campanhas de arrecadação voluntária são algo que a ABREE tem muito orgulho. Fazemos parcerias com empresas, prefeituras, mobilizamos a população e os estudantes. Em nosso site há uma plataforma educativa, com bastante conteúdo disponível gratuitamente”, informou.
“Ficamos felizes que os materiais descartados são reinseridos na cadeia produtiva. Pode ser que o plástico de um eletroeletrônico vire o plástico de um outro eletroeletrônico ou para outra mercadoria”, finalizou o especialista.
Com o tema central “A jornada da sustentabilidade que transforma esforços e investimentos em propósito”, o SITEC Ambiental 2026 ocorreu no Centro de Convenções Frei Caneca, na capital paulista.
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Por Keli Vasconcelos – Jornalista
Foto: Sofia Jucon



