Da Redação

Especial: Energia solar para pequenos e médios une ESG com preservação de negócios

Especial Energia solar para pequenos e médios une ESG com preservação de negócios - Portal Tec Nes

Da Redação

Por Keli Vasconcelos

Jornalista do Portal Tec News

 

O ano era 1997 quando o primeiro sistema fotovoltaico no Brasil foi instalado no Campus Central da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), trazido pelo professor Ricardo Rüther, em que foi montado com um inversor de 2 KW e 78 módulos de 32 W. A popularização se deu em 2012 quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), criou a Resolução 482, tornando-se uma opção viável aos consumidores que gerassem sua própria energia, além da redução em até 95% de um custo inquestionável: a conta de luz.

Atualmente, o país vive um cenário em meio ao aumento das tarifas e imprevisibilidade de fornecimento, e, na outra ponta, um crescimento exponencial em energia solar. De acordo com um levantamento da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), divulgado pelo Canal Energia, os investimentos, considerando a geração distribuída e as grandes usinas, já ultrapassam a marca dos R$ 300 bi desde o início da expansão da fonte. Entretanto, a associação fez no início de 2026 uma estimativa de retração de 7%, muito em razão de desafios operacionais e regulatórios.

Aprofundando esse panorama, segundo dados divulgados pelo site Investing, entre 2021 e 2023, a instalação foi de mais de 12 GW de potência solar fotovoltaica, acréscimo de 80% no número de usinas e projeção de investimentos de R$ 50 bi no setor até 2030. Também há a abertura de mercado na Bolsa de Valores do Brasil (B3), já que temos companhias ligadas ao setor listadas, permitindo “aguçar o apetite” por um mercado promissor e ligado diretamente ao ESG (compromissos ambientais, sociais e de governança).

Usina solar, da Solarprime, no MS

Nesse vórtice desponta-se um nicho: a geração solar nas empresas médias e pequenas (PMEs). Um estudo da Greener Consultoria, divulgado pelo Valor, releva que houve uma aceleração nos últimos anos na instalação fotovoltaica em médias empresas, com faturamento entre R$ 15 mi e meio bilhão de reais/ano, com crescimento anual de sistemas com porte entre 100 quilowatts (kW) e 1 megawatt (MW), triplicando a capacidade instalada.

O benefício, cabe ressaltar, vai além do corte de despesas: com a energia solar as empresas também ganham autonomia energética, valorizam seus ativos e demonstram alinhamento com práticas ESG, exigidas por investidores, parceiros e consumidores.

Nesta matéria, vamos entender como as PMEs podem se beneficiar, o que inclui o Mercado Livre de Energia e o armazenamento em baterias, com exemplos práticos e o que esperar desse setor cada vez mais dinâmico.

 

Energia solar para PMEs: de geração em geração

 

Segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o Mercado Livre de Energia responde por 43% de toda a eletricidade consumida no país, com o perfil predominante em PMEs: os setores de serviços e comércio lideraram as migrações em 2025, com 6.478 e 4.098 novos consumidores registrados, respectivamente.

Afinal, nem todas PMEs contam com espaços disponíveis ou mesmo dinheiro em caixa para aquisição de um sistema fotovoltaico. Ainda sim, muitas delas recorrem à geração distribuída com instalação própria como sendo a mais usual, em que as interessadas financiam o sistema para seu próprio telhado ou terreno, graças as facilidades como cartas de crédito verde oferecidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e bancos privados.

Já a outra outra opção é a geração distribuída compartilhada, também conhecida como Energia por Assinatura, sendo a que mais cresce entre as micro e pequenas empresas urbanas, em especial inquilinos ou comércios em prédios. A PME contrata o serviço de uma companhia que possui “fazendas solares”, recebe créditos e obtém descontos diretos na conta, que podem variar entre 10% e 20%, sem gastos em obras ou manutenção de painéis.

Um dos desafios – e oportunidades – atuais está justamente em mais um componente nesse enredo: o armazenamento energético, atualmente com a utilização tecnologias BESS (Battery Energy Storage System ou Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias). Essas baterias absorvem o excesso de geração quando a oferta supera a demanda e o liberam quando o sistema necessita. Consequentemente, há a estabilidade na rede, reduzindo desperdícios.

A questão está em fenômenos como o curtailment (redução forçada da geração devido às limitações de escoamento na rede de transmissão, veja mais sobre isso no Portal TECNEWS), o deslocamento de preços e  modulação horária.

Ao TECNEWS, Raphael Brito, CEO da Solarprime, rede especializada em soluções energéticas com clientes dos segmentos de serviços, pequenas indústrias e agronegócio, explica que a definição de regras mais claras trará mais segurança jurídica e previsibilidade para investidores, fabricantes e consumidores nesse quesito.

Foto: Solarprime/Divulgação

“O armazenamento ainda é um mercado em desenvolvimento no Brasil e, assim como ocorreu com a geração distribuída, a existência de um marco regulatório mais estruturado pode acelerar a adoção da tecnologia. Além de ampliar a confiança do mercado, a regulamentação contribui para definir responsabilidades, modelos de remuneração e formas de integração desses sistemas à rede elétrica”, salienta o especialista.

 

Amadurecimento regulatório e armazenamento energético

 

Por falar em regulação, dois marcos relevantes destacam-se nesse tema: a consulta pública da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) 039/2023, que trata da regulamentação dos sistemas de armazenamento de energia elétrica no Brasil, concluída neste mês, que recebeu 652 sugestões de 70 participantes.

De acordo com o texto aprovado, para a tarifação nos Sistemas de Armazenamento de Energia (SAEs) autônomos, totalmente controlados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), propôs um tratamento diferenciado, com redução dos encargos de consumo. Já para os Sistemas de Armazenamento de Energia com operação livre, haverá manutenção das regras atuais de contratação e pagamento pelo uso da rede. Nos SAEs que aceitarem ser despachados pelo ONS, informa a ANEEL, o Operador definirá integralmente quando carregar e descarregar as baterias e o armazenamento operará conforme as necessidades do sistema.

Já o segundo avanço é a publicação, também neste mês, da Portaria Normativa do Ministério de Minas e Energia nº 136/2026 para a realização dos Leilões de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP), com dois certames distintos previstos para dezembro, sendo “Armazenamento Nacional”, para projetos que atendam aos requisitos mínimos de conteúdo local; e “Armazenamento”, ampla concorrência entre os proponentes, independentemente da origem dos equipamentos.

O BNDES, aliás, afirmou que o Fundo Clima tem um orçamento para financiar sistemas de armazenamento por baterias que vencerem os leilões. Em evento voltados para jornalistas, realizado na sede do banco no Rio de Janeiro, o diretor de Planejamento e Relações Institucionais, Nelson Barbosa, afirmou a disponibilidade de R$ 27 bi para este ano, podendo chegar a R$ 34 bi “se o governo assim quiser e se o Congresso aprovar”, além de recursos para 2027.

Para Brito, da Solarprime, armazenar representa uma evolução natural do setor, mas ainda enfrenta questões sobre custos de aquisição, regulamentação e disseminação de conhecimento técnico. “O mercado brasileiro amadureceu rapidamente na geração distribuída, porém as baterias ainda passam por uma etapa de consolidação. É importante, para acelerar esse movimento, ampliar o acesso a linhas de financiamento, estabelecer regras regulatórias mais claras e fortalecer a capacitação técnica de integradores e equipes de operação e manutenção”, frisa o gestor.

Durante evento ocorrido no Rio de Janeiro, o secretário Nacional de Energia Elétrica, João Daniel Cascalho, ressaltou a regulamentação de novas tecnologias, como sistemas de armazenamento de usinas híbridas. “A reforma do setor elétrico é uma etapa importante na modernização, preparando o país para as próximas décadas com mais eficiência, competitividade e segurança. Isso fortalece o ambiente de investimentos, preserva o papel estratégico das distribuidoras e garante uma transição equilibrada para todos os agentes, garantindo a segurança energética, a modicidade tarifária e um setor cada vez mais moderno, sustentável”, afirmou o secretário.

 

Mercado Livre de Energia

 

Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE; mais informações neste link) mostram que o Mercado Livre de Energia já responde 43% de toda a eletricidade consumida no país, e os setores de serviços e comércio lideraram as migrações em 2025, com 6.478 e 4.098 novos consumidores, respectivamente.

Raphael Brito, da Solarprime, comenta que esse avanço revela a busca das empresas por autonomia e eficiência, sendo essencial para essa migração, o encontro entre planejamento e suporte técnico especializado. “O payback continua sendo um fator importante na decisão, mas não é o único. Dependendo do perfil de consumo e da região, o retorno do investimento costuma variar entre três e sete anos, enquanto a economia na conta de energia pode chegar a até 95%, com sistemas cuja vida útil supera 25 anos”, pontua, ao TECNEWS.

Ele acrescenta ainda que o seu negócio atua há mais de dois anos no segmento de sistemas BESS para aplicações comerciais e industriais e já possui 5 MWh em operação em diferentes regiões do país. Recentemente, após treinamento técnico realizado na China, se tornou a primeira empresa brasileira habilitada oficialmente pela Sofar, considerada uma das expoentes globais do setor, para realizar serviços de Operations & Maintenance (O&M) em sistemas BESS C&I diretamente certificados pelo fabricante.

 

Na prática

 

O Grupo Hotelaria Brasil usou o planejamento estratégico ao migrar para o Mercado Livre de Energia, proporcionando uma redução de 20% nos custos de energia elétrica das unidades participantes, além de economias que já ultrapassam R$ 500 mil. Fundado em 2003, a holding conta com três frentes de negócios: HB Hotéis (gestão de resorts e hotéis), Ventura Resorts (multipropriedade) e Unna Hospitality (hoteltech de inteligência).

Segundo Philippe Patay, VP de Operações da rede, a energia contratada foi selecionada junto a geradoras com certificação I-REC (International Renewable Energy Certificate; saiba mais neste link), o que comprova a procedência vinda de fontes renováveis.  “A iniciativa demonstra como a nossa expertise vai além da operação tradicional, abrangendo também estratégias voltadas à eficiência energética, sustentabilidade e geração de valor. Trata-se de um conjunto de ações com foco em inovação, inteligência operacional e melhoria contínua, consolidando-se para o crescimento sustentável do setor hoteleiro”, comenta o gestor.

Foto: Grupo Hotelaria Brasil/Reprodução

Já o Grupo MDA Alimentos adotou o modelo clássico, com a instalação de 3,6 mil painéis em duas unidades industriais em São Francisco de Paula, na Serra Gaúcha, gerando uma economia anual de 70% na conta de energia elétrica. Atualmente, 80% da energia que abastece as fábricas é produzida por esse modelo. “Com as placas solares, passamos a depender menos das oscilações tarifárias e ainda aumentamos a competitividade das operações industriais”, celebra Diego Auler, CEO do grupo, que envolve a produção de chips, snacks e extrusados, batatas pré-fritas congeladas e vodka de batata.

É visível, portanto, que a energia solar está se consolidando e auxiliando as empresas na corrida da descarbonização, em uma equação que une a conservação dos negócios e a consonância ESG. Seus avanços e expansões vão além das intenções e envolve uma fórmula entre o entendimento das próprias operações e o contato com esse setor, a fim de que essa jornada seja luminosa – literalmente.

Por Keli Vasconcelos – Jornalista

Foto de abertura: PublicDomainPictures por Pixabay

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *