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Especial: Soluções baseadas na Natureza (SbN) alicerçam a resiliência das cidades

Especial Soluções baseadas na Natureza (SbN) alicerçam a resiliência das cidades - Fitec Tec News

Da Redação

Por Keli Vasconcelos

Jornalista do Portal Tec News

 

Nos idos dos anos 2000, se emergiu um conceito que hoje é considerado uma das saídas para o enfrentamento da crise climática, a resiliência das cidades e a melhoria do bem viver das populações: as Soluções baseadas na Natureza (SbN).

O termo se popularizou por meio de um documento da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e o Banco Mundial e, na prática, tratam-se da utilização de processos regenerativos presentes na própria natureza para enfrentar desafios ambientais, sociais e climáticos. Entre os mais difundidos estão, por exemplo, jardins e biovaletas para drenagem de água da chuva, além de tecnologias e incrementos digitais e ancestrais para desafios como as ondas de calor e o tratamento do solo.

As SbN, aliás, cumprem requisitos regulatórios brasileiros, como a Lei de Adaptação (nº 14.904/2024), que define a necessidade de cidades e empresas se tornarem mais resilientes, bem como o Plano Clima Adaptação e o Programa Cidades Verdes Resilientes. No âmbito corporativo também se torna um nicho de negócio, envolvendo engenharias, consultorias ambientais, tecnologias de monitoramento e manejo sustentável.

Nesta matéria especial, vamos entender como as SbN podem ser determinantes para o presente e futuro de cidades, empresas e, principalmente, das pessoas.

 

SbN e Educação Ambiental: das escolas às empresas

“O conhecimento sem pertencimento, sem inconformismo, sem esperança, não move ninguém”. Com essas palavras, Livia Ribeiro, sócia-fundadora da consultoria Reconectta e engenheira Ambiental formada pela Unesp, impulsiona o Movimento Escolas pelo Clima, que tem como foco a educação ambiental desde a base, impactando atualmente mais de 1 mi de estudantes no país, sendo 70% de escolas públicas.

Ao TECNEWS, a especialista conta que um dos desafios para manter essas ações está em tratá-las como parte de uma cultura institucional: “O que sustenta esse ânimo é o poder do pertencimento. Ele se constrói com intencionalidade contínua, com reconhecimento do que já foi feito e, principalmente, com a criação de redes que conectam quem está ali fazendo acontecer. O Brasil, por si só, já é um laboratório de Solução baseada na Natureza”, endossa.

Com expertise no atendimento às corporações, Livia Ribeiro explica que muitas delas quando procuram a consultoria, já estão cientes da necessidade em avançar na agenda ESG, mas carecem ora de uma metodologia, ora de cumprir exigências legais, de clientes ou de uma cadeia de fornecimento. “Hoje observamos que há menos resistência por parte das empresas nesse tema. As Soluções baseadas na Natureza, aliás, têm um apelo com benefícios concretos, com alto retorno em termos de imagem, engajamento local e, algumas vezes, até redução de despesas operacionais”, diz.

Foto: arquivo pessoal

Como exemplo, ela destaca o ramo da alimentação ao valorizar as hortas orgânicas, sendo uma conjunção entre negócio, território e trabalho das comunidades. “Isso não é apenas uma ação ambiental, mas também uma diferenciação de produto, já que reduz insumos e consegue ainda contar uma história muito legal aos clientes. Esse ponto de inflexão entre a tendência e o modelo de negócio está justamente nessa integração”, arremata a gestora.

 

Parcerias com os municípios

Estimativas apontam que apenas 0,3% do investimento global em infraestrutura tem como destino as SbN. É o que reporta o mais novo guia digital da Fundação Grupo Boticário Proteção à Natureza, que traz informações sobre as Instituições Financeiras de Desenvolvimento (IFDs), informando que o Sistema Nacional de Fomento foi responsável por 96,2% das operações de crédito a municípios brasileiros em 2023.

A publicação (mais informações aqui) fez uma análise das barreiras atuais e propõe seis ações estratégicas para que as IFDs incorporem as SbN em seus portfólios, desde a capacitação de equipes e apoio técnico aos municípios, até a criação de produtos financeiros aderentes a esses projetos.

A fundação, que entende o fortalecimento de parcerias como um dos meios mais pertinentes para que essa jornada seja exitosa, selecionou 29 municípios selecionados – entre os mais de 100 projetos inscritos – para a Incubadora de Projetos Solução Natureza, iniciativa da Fundação em parceria com a C40 Cities e apoio do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e da Aliança Bioconexão Urbana.

As contempladas receberão suporte técnico individualizado e capacitação focada no fortalecimento de projetos urbanos com SbN, preparação para apresentações de impacto (pitch) e conexão direta com parceiros estratégicos, incluindo instituições financeiras e governo federal, com feedback especializado para aperfeiçoamentos.

Para Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, a natureza não pode ser vista como vilã, mas como forte aliada das cidades na adaptação às mudanças climáticas por meio dessa ferramenta chamada SbN. “Nosso objetivo é acelerar o surgimento de bons projetos, pois há interesse das instituições de fomento, mas ainda faltam propostas técnicas bem estruturadas”, completa.

Foto: Fundação Grupo Boticário/Divulgação

Ela salienta ainda que a união de esforços incorpora as soluções inovadoras para os desafios crescentes impostos pela mudança do clima, haja vista que estão provocando eventos climáticos mais intensos.

 

Benefícios às periferias

Os principais afetados pela crise climática se encontram nos extremos territoriais, as periferias. Para Dayse Vital, analista de Infraestrutura na Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES), as Soluções Baseadas na Natureza deixaram de ser iniciativas complementares para ocupar posição central no debate sobre adaptação urbana.

“Os ganhos, no entanto, vão além do controle de enchentes. A ampliação de áreas permeáveis e vegetadas tem impacto direto na redução do calor urbano, problema que se intensifica com o aumento da frequência das ondas de calor”, escreve a especialista, em seu artigo.

Vital destaca outro levantamento, este publicado no Landscape and Urban Planning Journal (2011), que aponta reduções médias entre 2°C e 5°C na temperatura local nas cidades que utilizam soluções sustentáveis (como pisos permeáveis), com relevantes efeitos em áreas densas e pouco arborizadas.

 

Oportunidades e valor

Pesquisas que envolvem o tema indicam fortemente as SbN como um caminho promissor para enfrentar a crise hídrica global. A do Boston Consulting Group (BCG, 2023, íntegra em inglês aqui) em parceria com o WWF (World Wide Fund for Nature) aponta que até 2050 haverá aumento na demanda por recursos hídricos acima da disponibilidade, afetando a segurança econômica, uma vez que 46% do PIB mundial virá de regiões consideradas de alto risco de escassez de água, com perdas nas empresas em torno de US$ 225 bi por conta desses possíveis problemas.

Eis que as cidades e as empresas encontram nesses incrementos um meio estratégico, já que permitem alinhar negócio, impacto e propósito. “É o caminho às que buscam ser sustentáveis não só no discurso, mas na prática. A escala e a continuidade também são fundamentais”, pontua Paula Mazzola, CEO e fundadora da Astera, rede que catalisa projetos e iniciativas socioambientais.

Para tanto, um mapeamento da intervenção, ou seja, a escolha da solução mais adequada ao contexto local, como agroflorestas ou telhados verdes, é o primeiro passo, argumenta a especialista. Depois, construir metas claras e detalhadas, envolvendo comunidades, ONGs, especialistas e governos, sem deixar de lado a avaliação de custos, o retorno sobre o investimento (ROI), contratos e indicadores de longo prazo. E, como citado, vem a continuidade, que é aprimorada com a ajuda da inteligência de dados para garantir rastreabilidade e transparência dessa massa de informações.

 

Nossa realidade

O relatório Estado do Clima Global 2025, divulgado pela World Meteorological Organization (WMO), mostra que a última década (2015 a 2025) foi a mais quente já registrada na série histórica, desde começaram as medições, em 1850.

Investir nas Soluções Baseadas na Natureza não é mais uma função paliativa, mas essencial e para agora. Exemplos já despontam: segundo o relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), investir nessas soluções pode criar até 32 milhões de novos empregos até 2030.

Das “franjas” (jargão técnico, que na linguagem acadêmica significa periferia) aos centros, da base à alta graduação, todas as pessoas nos territórios são beneficiadas quando as respostas para as questões mais complexas estão dentro de nossas próprias ações.

A natureza auxilia – e agradece.

 

Fotos: Freepik/Magnific e Divulgação

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