Sustentabilidade

SITEC: Aron Belinky acena para um futuro mais humano, sustentável – e possível

SITEC Aron Belinky acena para um futuro mais humano, sustentável – e possível - Portal Tec News

Como parte da imersão do SITEC Ambiental 2026 – Seminário de Tecnologia e Soluções Ambientais para a Indústria (confira a cobertura neste link), o Portal TECNEWS faz um aprofundamento de cada palestra pertencente aos painéis realizados nos dois dias de evento (18 e 19 de março).

 

O SITEC concluiu os seus trabalhos com um painel de encerramento intitulado “O Futuro Das Empresas Brasileiras – Estratégias Para Prosperar Com Sustentabilidade”, com a presença de mentes brilhantes e engajadas na gestão ambiental. O foco foi não apenas na fala de especialistas, mas um convite ao público participar ativamente da discussão, um momento de reflexão e compromisso, colaborando para moldar o futuro do setor.

 

A palestra que abrilhantou o encerramento do SITEC foi a cargo de Aron Belinky, consultor, Doutor pela FGV e referência em ESG, atuando na criação da ISO 26000 (orientações sobre Reponsabilidade Ambiental) e nos diálogos da Rio+20. O especialista começou sua apresentação com os dilemas práticos no mundo do ESG e da sustentabilidade empresarial, que envolvem principalmente razões para as empresas agirem (ou não) de modo mais sustentável.

 

Futuro mais sustentável

 

Na visão de Belinky é essencial a compreensão da dupla materialidade, ou seja, a materialidade de “Impactos” e a materialidade “Financeira”, com foco na própria na sigla ESG, tão utilizada atualmente. “Sustentabilidade e ESG são termos frequentemente usados de forma intercambiável e embora ambos apontem para mesma direção, não são sinônimos. Antes, ESG estava mais atrelado às empresas do setor de finanças e, a partir do momento em que a sustentabilidade foi misturada em fatores mais práticos, houve inclusive um movimento anti-ESG, com dilemas sobre utilizar essas práticas dentro dos negócios de um modo geral”, esclareceu em sua fala.

O professor fez uma alegoria da sustentabilidade dentro das organizações, que comumente pode estar associada a um ‘pequeno espaço’, com um nome de ‘departamento ESG’, mas que quando é vista com expectativas de valor, torna-se parte importante – e proeminente – nas operações. O especialista, inclusive, lançou a reflexão de as corporações se questionarem o pragmatismo ESG em suas atividades, se realmente são efetivas e se tais instrumentos estão em concordância com toda a complexidade que esse sistema envolve.

“Pode parecer exagero, mas é preciso exercício de questionamento. Até onde deve ir uma empresa na contribuição para a sociedade? Quais são, afinal de contas, as partes interessadas? E, em última instância, o que é material do ponto de vista do que tem que ser relatado pela empresa?”, salientou o especialista.

Para o profissional, um dos grandes problemas nesses questionamentos está justamente em compreender as perspectivas de ações consolidadas: “Tem gente que questiona ESG em boa-fé e tem gente que questiona de má-fé. A diferença entre boa-fé e má-fé está em os argumentos que você coloca são de fato os interesses que você defende. Uma argumentação de boa-fé é quando os argumentos de fato estão ligados, de má-fé é quando os argumentos estão mascarando uma discussão”, frisou.

Ele também endossou as semelhanças entre ESG Básico e Agenda 2030 e suas discrepâncias: “Dizer que utiliza os critérios ESG para o atendimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) é algo absurdo, porque são critérios muito mais profundos, pois não cobrem toda a agenda. Partes interessantes e partes interessadas são o princípio da materialidade financeira, que recorta o business case em sustentabilidade”, alertou.

 

Valor humano e a dupla materialidade

 

Em sua apresentação no SITEC, o especialista destacou a relevância do fator humano no diagnóstico das empresas dentro da dupla materialidade. Da filantropia até o uso consciente de recursos naturais, as corporações precisam ter em mente que vão vários estágios, que na visão de Belinky são denominados como gradientes, e que precisam ser levados em conta nas checagens para a elaboração de relatórios de sustentabilidade e investimentos.

“Se falar de filantropia estratégica, vai se falar de investimentos ESG, vai falar de economia de impacto. Então existem vários gradientes entre os dois, e não existe uma linha seca para se envolver. Não é uma linha puramente filantrópica e que isso é uma coisa puramente de investimento tradicional, porque há muita coisa diferente no meio. Você consegue até distinguir um do outro nos extremos, mas tem muita coisa no meio do caminho que a gente não consegue distinguir”, aprofundou em sua fala.

Belinky escreveu recentemente um artigo (FGV, 2025) que propõe expectativas de retorno, no balanço de impactos versus financeiros nessa dupla materialidade. “Há várias razões para uma empresa agir ou não do modo mais sustentável e há inúmeras gradientes dentro desse contexto, que vai desde lógicas de curto prazo até mais amplas de médio e longo prazo. Existem normas que exigem indicadores que discriminam a materialidade financeira para orientar investidores e as demais ações ESG feitas na organização e que ficam no report como suplemento”, elucidou.

 

Vertentes nos reports

 

Colocando a lupa sobre os relatórios de sustentabilidade (saiba mais no Portal TECNEWS), o especialista enfatizou que o Brasil já saiu na frente no quesito dupla materialidade, por integrar em seus reports ferramentas importantes, como o ISE B3 (Índice de Sustentabilidade Empresarial) e ABNT PR 2030, bem como o compromisso mútuo de complementaridade e interoperabilidade.

Outros instrumentos globais de mensuração que estão se consolidando nesse quesito: International Financial Reporting Standards – Sustainability (ISSB/IFRS) e European Sustainability Reporting Standards (EFRAG/ESRS), que possuem diretrizes interoperáveis. Belinky apresentou uma base global para divulgação de sustentabilidade baseada no conceito de “Building Blocks” – do inglês para os tradicionais blocos de construção (confira artigo sobre o assunto neste link).

Adotado no ecossistema IFRS, refere-se na maturidade em consolidar entendimentos sobre o que seja ou não relevante para integração às ferramentas de avaliação empresarial e decisão de investimento, uma forma de gerar soluções sustentáveis para os desafios urgentes da humanidade.

“Hoje, temos essas duas vertentes trabalhando na normalização da dupla materialidade: uma é ISSB/IFRS, que está com uma franca dominância aqui no Brasil e fora também, focada na maturidade financeira. Já EFRAG envolve o padrão europeu, tem mais complexidades, porque além da dupla materialidade, abrange a coleta de dados da cadeia de fornecedores e parceiros, bem como um grande volume de métricas”, esmiuçou o especialista.

“Logicamente, esses modelos de report precisam estar alinhados a diversos fatores. Há legislações que exigem mais informações, como a europeia. Também as empresas vão perceber que precisarão divulgar mais dados a outros públicos, como as partes interessadas, e o relatório será maior, em um padrão Global Reporting Initiative (GRI). A própria IFRS diz isso, com todas as letras”, finalizou o professor.

 

Com o tema central “A jornada da sustentabilidade que transforma esforços e investimentos em propósito”, o SITEC Ambiental 2026 ocorreu no Centro de Convenções Frei Caneca, na capital paulista.

 

Acompanhe o Portal TECNEWS e siga @fitecambiental para saber as novidades.

 

Por Keli Vasconcelos – Jornalista

 

Foto: Sofia Jucon