Já falamos anteriormente como a prática da chamada mineração urbana, ou seja, transformação de produtos pós-consumo em matérias-primas reutilização na produção de novos itens está em ascensão. O foco do momento é a digitalização, já que os equipamentos obsoletos contam com metais importantes para a indústria, especialmente a de tecnologia.
E o recado é claro e urgente: segundo a ONU, apenas 24% das 65 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos gerados no mundo em 2023 foram formalmente recicladas. Com isso, quase 50 milhões de toneladas de materiais valiosos, como as terras-raras, deixaram de retornar à cadeia produtiva.
Potencial da mineração urbana
“A mineração urbana existe justamente para reverter isso, mas esse potencial só é aproveitado quando os produtos são destinados corretamente ao sistema de logística reversa”, frisa Robson Esteves, Presidente da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (ABREE; confira participação no SITEC).
No país, a prática é regulamentada pelo Decreto nº 10.240/2020, e entidades gestoras, como a ABREE, são responsáveis por estruturar e operacionalizar o processo. “Para que os componentes retornem às cadeias produtivas, esse sistema é a melhor saída, sendo a etapa que conecta consumidores, fabricantes, comerciantes e recicladores”, salienta o executivo.
Vale ressaltar que celulares, computadores e baterias concentram materiais como lítio, cobalto, ouro, platina e paládio, cuja demanda global cresce com a transição energética.
Desapego
Um dos entraves para que, literalmente, a “roda gire” está numa prática simples: o desapego de itens parados nas gavetas. Um estudo do Projeto RECUPER3, coordenado pelo Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mostra que 81,2% dos brasileiros mantêm tais equipamentos em casa.
Além de ocupar espaço, aparelhos contém substâncias tóxicas como chumbo, mercúrio e cádmio. “Há falta de informação sobre onde e como descartar esses materiais, o que contribui para o acúmulo doméstico”, explica a pesquisadora Lúcia Helena Xavier, que coordena o estudo nacional, detectando que o país gera 2,4 milhões de toneladas desse tipo de resíduo por ano.
O diagnóstico (mais informações) também aponta limitações na infraestrutura e na regulação, como a rede ainda insuficiente de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), a baixa adesão do varejo às exigências legais e as diferenças significativas entre os estados nos processos de licenciamento ambiental e monitoramento.
Por Keli Vasconcelos – Jornalista
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