Por Sofia Jucon
O setor ambiental, a engenharia química e a academia brasileira despedem-se de uma de suas figuras mais brilhantes. O falecimento do professor doutor Gil Anderi da Silva, no dia 17 de junho, deixa um vazio imensurável, mas evoca uma profunda reverência a uma trajetória inteiramente dedicada à excelência, à ciência e à formação de gerações de profissionais ligados à sustentabilidade.
Graduado em Engenharia Química pela Universidade de São Paulo (USP) em 1964 e doutor em 1972, o professor Gil Anderi construiu uma história que se confunde com a própria evolução da Escola Politécnica (Poli-USP), instituição onde foi livre-docente e atuou como professor associado com dedicação exclusiva por décadas. Sua mente brilhante transitou com maestria entre a pesquisa de ponta e a aplicação industrial, tendo liderado projetos no IPT, na Paulo Abib Engenharia e na Quimbrasil. Sua contribuição ao país também se estendeu à esfera regulatória e institucional, nas quais prestou serviços de relevância ímpar à nação como conselheiro do Conselho Federal de Química (CFQ).
Se hoje o mercado brasileiro debate com maturidade a sustentabilidade, a ecoeficiência e as tecnologias limpas, deve-se ao pioneirismo do professor Gil. Ele foi um dos grandes arquitetos da introdução e consolidação da Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) no país. Desde o final da década de 1990, quando o tema ainda era uma fronteira distante para muitos, ele já coordenava pesquisas fundamentais nessa área. É fundador de inúmeras iniciativas como a criação da Associação Brasileira do Ciclo de Vida (ABCV) e da Red Iberoamericana de Ciclo de Vida (RICV). Sob sua liderança, o Brasil viu nascer os primeiros bancos de dados nacionais de Inventário de Ciclo de Vida (ICV) para a competitividade da indústria e para o setor petroquímico, unindo rigor científico à transição para uma economia de baixo carbono.
Mais do que um pesquisador de vanguarda, Gil Anderi foi um educador por vocação. Na coordenação do curso de Especialização em Gestão e Tecnologias Ambientais do PECE (Programa de Educação Continuada da Poli-USP), ele não formava apenas especialistas; ele moldava líderes. Como bem destacou a PECE Poli USP em nota de homenagem, “sua liderança exemplar foi apenas uma das muitas formas pelas quais ele moldou o futuro de tantos profissionais. Mais que um coordenador, Gil foi uma fonte constante de inspiração e mentor”. Sempre entusiasmado, dedicado e profundamente inteligente, ele desempenhou com maestria os papéis de mestre, conselheiro e amigo.
Grande referência para o jornalismo especializado
Como jornalista da área, sinto essa perda de forma muito próxima. Por experiência própria, considero que para a comunicação especializada e o jornalismo ambiental, o Professor Gil era muito mais que uma fonte de informação; era um norte de precisão técnica e clareza didática.
Conheci o professor Gil logo no início da minha carreira, em 1996, enquanto atuava como jornalista na Revista Meio Ambiente Industrial. Desde então, sempre acompanhei de perto o seu trabalho, pois ele se tornou uma das minhas fontes mais importantes e consultadas neste tema. Em 18 de junho de 2017, há exato nove anos, estive pessoalmente com o Prof. Gil na sede da Poli, na USP, para uma entrevista exclusiva. Naquele dia, fiz um registro fotográfico e celebrei o privilégio de estar fazendo exatamente o que mais amo: conduzindo uma reportagem sobre a complexidade da Avaliação de Ciclo de Vida ao lado de um grande mestre. Ele sempre foi uma das referências mais importantes e inspiradoras para a minha trajetória profissional. Estar com ele era sinônimo de um encontro emocionante e, acima de tudo, de muito aprendizado.
Em minha concepção, o ciclo do professor Gil Anderi da Silva se encerra fisicamente, mas o seu legado permanece vivo, inspirador e eterno. Ele continuará presente em cada trabalho de sustentabilidade estruturado com seriedade, em cada inventário de ciclo de vida mapeado no país e na conduta ética de cada engenheiro, gestor e consultor ambiental que teve a honra de aprender a olhar o mundo através dos olhos da sua excelência.
Nossos mais profundos sentimentos estão com sua família, com seus amigos e com a legião de alunos e admiradores que hoje sentem a sua partida, mas celebram a honra de terem sido guiados pode ele em algum momento.
Tenho a certeza de que sua jornada de evolução continua em outro plano, onde ele certamente segue trabalhando, ensinando e contribuindo com sua sabedoria e generosidade infinitas.
Obrigado por tudo e por tanto, Professor Gil.

Sofia Jucon
Jornalista, formada pela Universidade Braz Cubas (1995); pós-graduada em Gestão Ambiental pelo Senac (2002); atua há 30 anos nas áreas de meio ambiente/ sustentabilidade, saneamento, segurança e saúde do trabalho, prevenção e combate a incêndios e segurança digital/patrimonial. Foi jornalista responsável e editora da Revista Meio Ambiente Industrial (1996-2020). É editora/redatora do Portal Tec News; das Revistas Cipa & Incêndio e Portal Security, entre outros veículos segmentados, além de ser coordenadora executiva de congressos, cursos e treinamentos ligados aos temas.
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