Mudanças Climáticas

El Niño raro e veloz ameaça intensificar o cenário de calor extremo no país

El Niño raro e veloz ameaça intensificar o cenário de calor extremo no país - Fitec Tec News

Noticiamos recentemente no TECNEWS a pesquisa que 85% dos brasileiros afirmam se sentirem afetados pela emergência climática. Um desses fenômenos é o calor extremo, que já não é mais visto como um caso pontual, mas integrado na realidade global.

A preocupação é tamanha: as ondas de calor causaram aproximadamente 50 mil mortes apenas em regiões metropolitanas no Brasil entre 2000 e 2020, superando com folga tragédias causadas por enxurradas e deslizamentos. É o que aponta um diagnóstico feito em 53 municípios brasileiros, divulgado pela presidência da COP30 e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma; mais informações neste link).

Segundo o estudo, 93% dos entrevistados classificam o calor como relevante e 68% o colocam entre os três maiores desafios locais. Na outra ponta, esse fato ainda não se traduz em capacidade de resposta, já que 66% das cidades ainda não iniciaram ou estão apenas começando seus planos de ação e 75% não utilizam dados de forma estruturada na tomada de decisão.

Para piorar, muito embora 60% dos munícipios tenham uma secretaria dedicada ao tema, apenas 42% dispõem de sistemas de informações geográficas para mapeamento e 85% dependem de recursos externos para implementar medidas com celeridade.

Ana Toni, CEO da COP30, lembra que calor extremo não se resume a um dia “muito quente”, mas dois ou mais seguidos, com destaque para a concentração que não é dissipada à noite. “É uma catástrofe a conta-gotas que deixa cidades, comunidades e territórios inabitáveis, forçando bilhões de pessoas a mudar suas rotinas. Adaptar-se demanda colaboração multinível e intersetorial, com apoio nacional e internacional”, destaca a gestora.

O levantamento é parte da iniciativa Mutirão Contra o Calor Extremo (Beat the Heat), que integra a plataforma global Coalizão pelo Resfriamento (Cool Coalition), reunindo atualmente 258 cidades em todo o mundo, sendo 105 no Brasil.

 

Arborização para combater o calor extremo

 

Um dos esforços para lidar com essa situação está na arborização urbana. Em maio, o governo federal anunciou o edital ArborizaCidades, que prevê R$ 19 mi aos municípios elaborarem ou revisarem seus planos e de plantios arbóreos em zonas urbanas, e o GEOCAU, ferramenta que mapeia as ilhas de calor nas cidades e permite identificar e planejar ações para ampliar áreas verdes.

“É urgente debater os impactos, que exige ação imediata. Trata-se de agir, principalmente, de forma preventiva e adaptando a nossa sociedade e as nossas cidades a essa realidade. E promovê-la envolve o combate à pobreza, à desigualdade e ao racismo ambiental. É uma ação política”, ressaltou, no evento de lançamento, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), João Paulo Capobianco.

 

Resiliência

 

Pelo Brasil, já despontam iniciativas importantes de enfrentamento, como em Teresina, que anunciou a participação na iniciativa internacional 50@50 – Cities Climate Action for a 50°C World, programa coordenado pelo Pnuma em parceria com a Cidade de Paris.

Atualmente, 50 cidades de diferentes países – como Paris, Barcelona, Melbourne, Lagos e Campinas – compõem a ação que tem como propósito desenvolver soluções inovadoras para enfrentar os impactos do calor extremo e aumentar a resiliência urbana diante das mudanças climáticas.

Na prática, a região piauiense incluída por conta de seu alto engajamento com a agenda climática e na implementação de estratégias voltadas à adaptação e à sustentabilidade urbana. “A participação reafirma nosso compromisso com a cooperação internacional e com a construção de políticas públicas inovadoras. Estar ao lado de importantes cidades do mundo fortalece nossa capacidade de desenvolver soluções urbanas mais resilientes, inclusivas e sustentáveis para a população”, celebra o coordenador da Agenda Teresina 2030, Leonardo Madeira, à Folha Piauí.

Outra cidade que está em constante adaptação é o Rio de Janeiro, com o projeto “Mapeando as vulnerabilidades ao calor e cotidiano nas favelas do Rio de Janeiro”, em que os próprios moradores são capacitados para investigar as condições de conforto térmico, por meio de entrevistas com vizinhos, medições dentro das residências e registros dos efeitos do calor no corpo, na rotina e na saúde, além da instalação de medidores de temperatura e umidade relativa em algumas casas.

A ação é uma parceria entre a ONG Revolusolar, a Universidade de Utrecht (Holanda), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Unilasalle. “O projeto vai gerar uma maior conscientização de que o problema não é simplesmente o aumento da temperatura do planeta ou as mudanças climáticas, e sim um componente social. Além de nos permitir subsidiar políticas públicas aprimoradas para enxergar que existem núcleos mais quentes e mais desfavoráveis”, diz Eduardo Bulhões, geógrafo da UFF, ao site O Dia.

 

El Niño “raro”

 

O novo episódio do El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, está causando surpresa aos pesquisadores. Segundo o meteorologista Nathaniel Johnson, integrante da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA), a transição será considerada “atipicamente veloz e rara”.

Caso se confirme, Johnson, em entrevista ao site Life Science, replicada pela Metsul, existe 50% de probabilidade de que o próximo evento atinja intensidade forte e 25% para a categoria muito forte, o que envolve o risco elevado de queimadas, branqueamento de corais e perdas agrícolas.

Mesmo com esse cenário, o especialista ressaltou a cautela e a importância de acompanhar a evolução das previsões meteorológicas e preparo para os possíveis riscos.

 

Por Keli Vasconcelos – Jornalista

Foto: Alex Ferro/COP30

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