Enquanto Milão abria mais uma temporada da Fashion Week, a Milano Fashion Week 2027 feminina, ocorrida de 22 a 28 de setembro de 2026, organizada pela Camera Nazionale della Moda Italiana, os olhos da indústria se voltavam para o que será produzido nas próximas coleções, um projeto brasileiro propôs outro olhar sobre a moda: fazer circular o que já existe.
O Instituto Por Elas realizou na capital italiana a última edição de 2026 do Troca & Valoriza, iniciativa do projeto Re-Valorize Por Elas. O encontro reuniu 45 lideranças femininas no espaço da Banca Mediolanum e colocou mais de 500 peças em circulação. Mais de 200 foram trocadas durante o evento.
A edição de Milão encerrou uma jornada de oito meses, com encontros em Nova York, Belo Horizonte, São Paulo, Brasília, Salvador e Milão. Ao todo, foram mais de 2.600 peças arrecadadas, 1.400 trocadas, 240 mulheres mobilizadas e 40 formadas para trabalhar com moda circular.
O modelo é simples: cada convidada leva pelo menos dez peças que não utiliza mais e pode trocá-las por outras. Por trás dos encontros, porém, existe também uma estratégia de geração de renda.
O projeto inclui a formação de 20 horas Re-Valorize – Empreenda com Brechó, que aborda curadoria, precificação, vendas e gestão e prepara mulheres para transformar peças de segunda mão em oportunidade de negócio.
“Para mim, isso nunca foi sobre roupa. É sobre a transformação que acontece quando uma mulher descobre que sabe fazer algo pelo qual o mercado quer pagar e, com isso, pode alcançar sua independência financeira. Apoiar essas mulheres é o objetivo do Instituto, e ficamos felizes em promover capacitação com resultado por meio do Re-Valorize”, afirma Rizzia Froes, presidente do Instituto Por Elas.

O que acontece com as peças que sobram
No projeto, nenhuma peça deve terminar no lixo. As roupas que não são escolhidas durante os encontros são destinadas a instituições que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade ou reservadas para parcerias com brechós e bazares promovidos pelo Instituto.
Os recursos arrecadados nesses bazares retornam para ações de atendimento a mulheres em situação de vulnerabilidade acompanhadas pelo Por Elas. Assim, uma roupa doada pode voltar ao ciclo como uma nova peça para outra pessoa, gerar renda ou contribuir para financiar uma ação social.
Produção brasileira em Milão
A produção da edição italiana ficou sob responsabilidade de Moisa Marinho, da Moisa Luxury Event Planner, escritório de eventos e experiências sediado em Milão.
Moisa coordenou a produção do espaço, a experiência das convidadas, a logística e a articulação dos patrocinadores. Ao todo, dez marcas e parceiros participaram da realização, oferecendo estrutura, alimentação, bebidas, decoração e programação artística.
“Eu produzo eventos de luxo há anos, e o mais importante é fazer a pessoa sair dali diferente de como entrou. Quando entendi o projeto, ficou claro que dava para usar a mesma estrutura que serve uma grife para servir uma mulher que sonha em empreender com moda circular. Em Milão, criamos uma experiência que encantou essas mulheres e despertou o desejo de viver novamente esse momento de troca e valorização da moda circular”, afirma Moisa Marinho.
Moda circular ganha espaço na Europa
A realização do projeto em Milão acontece em um momento de mudanças importantes para a indústria europeia.
Desde julho de 2026, novas regras europeias avançam sobre a destinação de roupas e calçados não vendidos por grandes empresas, reforçando alternativas como reutilização, revenda, reparo e doação em lugar da destruição de produtos.
No Brasil, o mercado de segunda mão também vem ganhando espaço, impulsionado pela combinação entre sustentabilidade, economia e novos modelos de consumo.
É nesse cenário que o Instituto Por Elas posiciona o Re-Valorize: além de prolongar a vida útil das roupas, o projeto utiliza a moda circular como ferramenta de autonomia econômica feminina.
Milão terá nova edição em 2027
A experiência de 2026 também abriu caminho para a continuidade internacional do projeto. Após a edição realizada durante a semana da moda, o Instituto recebeu convite para repetir o Troca & Valoriza em Milão, e uma nova edição para 2027 está em articulação.
A próxima etapa deverá abrir espaço para novas marcas e parceiros interessados em participar por meio de patrocínio, estrutura ou ativações.
Interessados podem entrar em contato pelo e-mail projetos@porelas.org.
O futuro da moda é circular e regenerativo
O sucesso da ação em uma das capitais mundiais do design evidencia que a moda circular deixou de ser uma tendência alternativa para se tornar o motor de uma transformação global inadiável. Em um setor historicamente marcado pela efemeridade e pelo descarte acelerado, o modelo de reaproveitamento ganha escala não apenas como resposta à emergência climática, mas como uma nova cultura de consumo.
Ao comprovar que peças pré-existentes possuem alto valor econômico, estético e social, iniciativas dessa natureza abrem espaço para um modelo regenerativo em que sustentabilidade e geração de renda caminham lado a lado. Trata-se de um caminho sem volta para um mercado que, cada vez mais, precisa aprender a criar valor a partir do que já existe no mundo.
Nesse novo arranjo econômico, iniciativas que unem rastreabilidade, curadoria e inclusão produtiva deixam de ocupar um nicho periférico e passam a ditar o padrão de competitividade e responsabilidade socioambiental que o mercado exige daqui para frente. É uma tendência que veio para ficar!
Fotos: Instituto Por Elas/Divulgação




