Mudanças Climáticas

Super El Niño: como as empresas estão se preparando para o fenômeno

Super El Niño como as empresas estão se preparando para o fenômeno - Portal Tec News

O chamado Super El Niño (caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, confira conteúdo especial no Portal TECNEWS) já está mobilizando diversos setores da economia brasileira, já que os seus efeitos podem afetar a agricultura, os recursos hídricos e aumentar a ocorrência de eventos extremos.

Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que a cada aumento de 0,1 °C na temperatura média global, os impactos na economia brasileira podem chegar a R$ 56 bi.

Em julho, durante reunião ministerial conduzida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, as estimativas de aporte podem alcançar até R$ 1,3 bi em ações para enfrentar os impactos negativos, envolvendo 24 ministérios, além de institutos de monitoramento e pesquisa, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

De acordo com matéria do g1, esse investimento será viabilizado a partir de “uma folga” nos orçamentos ministeriais. “A estratégia também prevê articulação com prefeituras, que serão procurados para conhecer o plano de ação e discutir a implementação das medidas de acordo com as necessidades de cada região”, informa.

E o cenário merece atenção e já é um fato histórico: em entrevista ao programa Soberania em Debate, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE/RJ), o climatologista Carlos Nobre, uma das maiores autoridades mundiais no tema, reforçou que o padrão climático no território brasileiro por conta do fenômeno é conhecido, porém, somado ao aquecimento acelerado dos oceanos, haverá uma sobreposição de riscos que o país ainda não enfrentou em toda a sua extensão.

Modelos estudados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam mais de 90% de probabilidade de o El Niño se estender até o início de 2027.

 

Combate ao Super El Niño: do planejamento à ação

 

Esses panoramas estão nas mesas de planejamento, negociação e execução de diversos segmentos econômicos. Ana Luci Grizzi, especialista em riscos climáticos e adaptação corporativa, ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, destaca que o El Niño terá impactos diferentes em cada região brasileira, o que exige adaptações imediatas para reduzir perdas, como no agronegócio.

E não é para menos, após o agro sofrer perdas superiores a R$ 200 bi provocadas pela emergência climática, a combinação de informação e previsibilidade é parte integrante das operações e no consentimento de financiamentos, já que as instituições passaram a avaliar o nível de preparação dos produtores antes de definir condições. “Bancos e mercado de capitais passaram a solicitar informações sobre planos de mitigação e adaptação antes de conceder crédito”, frisa Grizzi.

Já no setor energético, a integração de órgãos é uma máxima empregada, a exemplo da Copel (Companhia Paranaense de Energia), concessionária responsável pela geração, transmissão e distribuição de energia elétrica no estado do Paraná, que reuniu meteorologistas com profissionais das áreas de operação, infraestrutura e gerência de bases de campo, para oficinas de alinhamento de ações de contingência com foco no Super El Niño.

“A modelagem climática nos indica que os meses de setembro, outubro e novembro no Brasil possam ser influenciados por esse El Niño com intensidade muito forte”, observa um dos palestrantes, Gustavo Verardo, coordenador da Climatempo, em São Paulo.

Para Gustavo Theodor Carvalho, diretor de Operação e Manutenção da Copel, a operação coordenada é essencial no entendimento e tomada de decisão em situações de eventos climáticos. “Buscamos eficiência, em coordenação com demais atores desse processo. Quando pensamos no restabelecimento da energia, as primeiras ações são orientadas para os serviços essenciais de hospitais, saneamento, serviços públicos que garantem o funcionamento dos municípios. Mas para a nós, o restabelecimento de todos os clientes é prioridade”, completa.

 

Guia para indústria

 

Para auxiliar as companhias a incorporar informações climáticas ao planejamento e mitigar impactos de eventos extremos sobre a produção, a CNI lançou um guia (íntegra neste link) com recomendações, com destaque para as áreas de alimentos, têxtil e óleo & gás.

Visibilidade da cadeia de suprimentos; agilidade logística; gestão de recursos como infraestrutura crítica; análise e uso de dados estão no rol de eixos a serem observados e praticados pelas empresas.

Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, salienta que a questão gera ainda mais cumprimentos da agenda ESG: “Em um mercado internacional que exige cada vez mais responsabilidade ambiental e social, garantir que a produção continue funcionando sem interrupções não apenas evita prejuízos, mas fortalece a reputação e a competitividade das empresas brasileiras com parceiros globais”, adverte.

 

Por Keli Vasconcelos – Jornalista

Foto: JP Gomes/Copel