Pessoas físicas. Eis o perfil da cadeia da reciclagem no Brasil, é o que revela o documento “Retrato SyGeCom da Reciclagem no Brasil”, realizado pela SyGeCom, desenvolvedora de softwares de gestão para negócios de reciclagem.
Segundo o levantamento (download), reunindo registros de clientes ativos em todos os estados, dos 323.500 fornecedores que realizaram ao menos uma transação de materiais recicláveis com clientes da SyGeCom em 2025, 84,79% (274.276) eram pessoas físicas, já as jurídicas foram apenas 15,21% (49.224) da fatia.
Dinho Machado, CEO do Grupo SyGeCom, destaca a prevalência do CPF nas transações de venda de material reciclado às empresas no sistema criado pelo grupo. Fazendo um recorte, somente em outubro, os quatro sistemas da SyGeCom somavam mais de 1,1 milhão de fornecedores cadastrados ao longo de sua trajetória, dos quais 83,91% eram pessoas físicas e 16,09%, pessoas jurídicas.
“Esses dados são reflexo da cultura da reciclagem no Brasil, movimentada, em grande parte, por catadores autônomos que encontram na atividade um meio de renda e sobrevivência”, pontua o gestor.
Formalização é ainda entrave
O ponto que chama a atenção é justamente da transição de pessoa física para jurídica dessa massa trabalhadora, ou seja, a formalização é ainda um entrave.
A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) contabiliza que o Brasil gerou mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2025, e, desse total, a reciclagem efetiva calculada pelo Ministério das Cidades foi de 4,5%, ou seja, uma discrepância da meta de 20% que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) fixada para o ano passado. Quando se inclui a coleta informal por catadores autônomos, o índice sobe para 8,7%.
Na opinião de Reinaldo Dias, Doutor em Ciências Sociais (Unicamp), há um conjunto de problemas que envolvem o sistema, até mesmo a carência de entendimento de sustentabilidade em si – e isso não recai no consumidor, mas na importância da indústria para melhorias em design e, inclusive, evitar práticas de greenwashing.
Dias frisa ainda que determinados tipos de material podem conter misturas, pigmentação inadequada ou mesmo ausência de compradores, dificultando ainda mais a valorização desse trabalho.
Reciclado ou resíduo?
De acordo com o estudo “Catadores por Menos Plástico”, do Instituto de Direito Coletivo (IDC) em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) – Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária do Médio Paraíba (InTECSOL), citado pelo pesquisador, cada catador perde, em média, 15,59 horas de trabalho por mês na triagem de plásticos que não têm valor de mercado, ou dois dias dedicados ao manejo desses resíduos, que não geram qualquer retorno financeiro.
“O selo de reciclável estampado nas embalagens sugere ao consumidor que o descarte correto garante o retorno do material ao ciclo produtivo. Na realidade das cooperativas, boa parte desse material nasce como rejeito, pois não há viabilidade econômica ou tecnológica para seu reaproveitamento”, endossa o pesquisador Dias, em artigo ao Eco Debate.
Por Keli Vasconcelos – Jornalista
Foto: SyGeCom / Divulgação




