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Fertilizantes de menor emissão avançam no campo com desafio de conciliar carbono e produtividade

A tentativa de reduzir a pegada de carbono da agricultura está chegando a uma etapa anterior ao plantio: a fabricação dos fertilizantes. A empresa norueguesa, Yara, vem ampliando no Brasil o uso de produtos fabricados com menor intensidade de carbono, em uma estratégia que procura combinar redução de emissões com manutenção da produtividade agrícola.

Dados apresentados pela companhia no 6º Encontro Impactos Positivos, realizado em 24 de setembro, na FIAP, em São Paulo, mostram resultados em culturas como batata e café. Em uma área de 138 hectares de batata, a empresa registrou redução de 28% na pegada de carbono e aumento de 9,8% na produtividade com um programa nutricional completo. No café, projetos abrangem mais de 300 hectares de arábica e 120 hectares de canephora, com redução de 40% na pegada de carbono, segundo a apresentação de Filippo Scelza, gerente de Assuntos Institucionais da Yara no Brasil. Em um caso específico de produção de canephora na Bahia, a redução reportada chegou a 41%.

Os números colocam em evidência uma questão para a cadeia de alimentos: como diminuir as emissões associadas à agricultura sem comprometer a produtividade.

O desafio é relevante no caso dos fertilizantes. Segundo dados apresentados pela Yara, mais de 50% dos alimentos consumidos atualmente são produzidos com o uso de fertilizantes minerais. O material também cita uma estimativa segundo a qual esses insumos teriam contribuído para salvar 2,7 bilhões de vidas ao ampliar a capacidade de produção de alimentos. A estimativa é reproduzida pela companhia a partir de uma comparação histórica de inovações.

A relação entre fertilizantes e produtividade remonta ao início do século 20. Em 1905, em Notodden, na Noruega, Sam Eyde e Birkeland desenvolveram um processo para extrair nitrogênio da atmosfera utilizando energia hidrelétrica, tecnologia que deu origem ao primeiro fertilizante mineral nitrogenado, segundo o histórico apresentado pela empresa.

Mais de um século depois, o problema tecnológico mudou. Além de fornecer nutrientes para sustentar a produção agrícola, fabricantes procuram reduzir as emissões associadas à fabricação desses insumos.

Filippo Scelza, gerente de Assuntos Institucionais da Yara Brasil. (Foto: Giovanna Moretti/GVA)

 

Filippo Scelza, gerente de Assuntos Institucionais da Yara no Brasil, afirmou durante o encontro que fertilizantes nitrogenados de menor pegada já estão disponíveis e vêm sendo utilizados por produtores no país. Executivo de Relações Governamentais e Políticas Públicas com 13 anos de experiência nos setores público e privado, Scelza lidera as estratégias de Relações Governamentais e Sustentabilidade Corporativa da companhia no Brasil.

 

Fertilizantes com menos emissão

 

Uma das frentes apresentadas foi o Yara Climate Choice, portfólio de fertilizantes produzidos com processos de menor emissão. Segundo a companhia, esses produtos podem apresentar pegada de carbono até 90% menor, sem alteração na qualidade ou na eficiência do fertilizante.

A dimensão da diferença entre processos produtivos aparece em uma comparação apresentada pela própria Yara. O material mostra valores de 10,4 quilos de CO₂ equivalente por quilo de nitrogênio para a China, 7,2 para a Rússia e 3,2 para a Europa. A companhia afirma ainda que seus fertilizantes atuais podem representar redução de até 60% em relação às referências de maior intensidade de carbono utilizadas na comparação.

A fabricação, porém, representa apenas uma parte da equação. O desempenho de uma lavoura também está relacionado ao manejo, às características do solo, ao uso de nutrientes e à produtividade obtida por hectare.

A Yara afirma combinar fertilizantes de menor emissão com conhecimento agronômico, ferramentas digitais, análise de solo e programas de nutrição. Segundo a apresentação, mais de 150 pesquisas estão em andamento com foco no desenvolvimento da agricultura brasileira.

A estratégia inclui ainda soluções de fertirrigação, aplicações foliares e bioinsumos. O material apresentado pela companhia também afirma que nitratos possuem maior eficiência no uso de nitrogênio, conhecida pela sigla NUE, em comparação com produtos de base amoniacal.

Os resultados em batata ajudam a mostrar por que produtividade e emissões precisam ser analisadas conjuntamente. A redução de 28% na pegada de carbono foi acompanhada de aumento de 9,8% na produtividade, mas a própria apresentação associa o resultado à adoção de um programa nutricional completo, e não somente ao fertilizante.

 

Palestra da Yara, no 6º Encontro Impactos Positivos (Foto: Giovanna Moretti/GVA)

 

Tecnologias de menor carbono

 

Para o produtor rural, essa distinção é relevante. A expansão de tecnologias de menor carbono depende não apenas da redução das emissões, mas também de rendimento, custos e retorno econômico. Para empresas que compram produtos agrícolas, a redução da pegada na origem pode contribuir para diminuir as emissões associadas às matérias-primas de suas cadeias de fornecimento.

A questão é quanto desses resultados pode ser reproduzido em escala. Desempenhos registrados em uma cultura ou região não são automaticamente transferíveis para outras condições. Solo, clima, variedade cultivada, disponibilidade de água e práticas de manejo podem interferir no resultado.

As mudanças climáticas acrescentam complexidade a esse cálculo. Durante a apresentação, Scelza citou alterações nos períodos de chuva e seca entre as dificuldades já observadas por agricultores. Ao mesmo tempo que está exposta às mudanças do clima, a agricultura também participa das emissões de gases de efeito estufa.

O material da Yara aponta uso da terra, cultivo de arroz, pecuária, resíduos orgânicos e produção e aplicação de fertilizantes minerais entre fontes de emissões relacionadas à atividade. A apresentação utiliza como referência dados da FAOSTAT de 2020, além de cálculos baseados em informações da indústria de fertilizantes.

Scelza argumentou que a expansão das soluções de menor emissão dependerá da coordenação entre empresas, governos e universidades. Para o poder público, citou políticas públicas, previsibilidade regulatória e incentivos como elementos para estimular investimentos e ampliar a adoção de soluções sustentáveis. À academia atribuiu pesquisa, desenvolvimento e formação de profissionais, enquanto empresas e instituições teriam o papel de conectar inovação, investimento e aplicação em escala.

A inteligência artificial, tema da sexta edição do encontro — “Inteligência Artificial. Inteligência humana. Impacto coletivo.” — apareceu nesse contexto como mais uma ferramenta disponível para apoiar o avanço tecnológico. Scelza relacionou inovação à ciência, ao conhecimento e à formação de pessoas, destacando o papel do capital humano no processo de transformação.

Criado por Gisele Abrahão, fundadora e CEO da plataforma Impactos Positivos, o encontro chegou à sexta edição reunindo empreendedores e organizações ligados a negócios de impacto. Abrahão também esteve à frente da apresentação da programação.

O evento sediou ainda o 6º Prêmio Impactos Positivos. Aventura de Construir foi reconhecida na categoria Dinamizador; Pesqueiro Sustentável, em Ideação; TrackGains, em Operação; e Parque Ecológico Rio Formoso, em Tração/Escala.

O avanço dos fertilizantes de menor emissão acrescenta uma nova variável a uma equação que durante décadas esteve concentrada principalmente no rendimento agrícola. Além de quanto uma lavoura consegue produzir por hectare, ganha importância a quantidade de carbono associada a essa produção. Para tecnologias como as apresentadas pela Yara, o avanço em escala dependerá da capacidade de reproduzir em diferentes culturas e regiões os resultados registrados em projetos específicos, mantendo produtividade e condições econômicas que sustentem sua adoção.

 

Foto de abertura: Yara Brasil/Reprodução