Sustentabilidade

SITEC: Projeto Paradas une ciência e sustentabilidade na valorização de praias

SITEC Projeto Paradas une ciência e sustentabilidade na valorização de praias - Fitec Tec News

Como parte da imersão do SITEC Ambiental 2026 – Seminário de Tecnologia e Soluções Ambientais para a Indústria (confira a cobertura neste link), o Portal TECNEWS faz um aprofundamento de cada palestra pertencente aos painéis realizados nos dois dias de evento (18 e 19 de março). O mote do painel da tarde do segundo dia de evento (19) foi “Gerando Valor com Sustentabilidade Proativa”, com a palestra inicial de Caio Reis, de Cubatão (SP), coordenador do projeto Paradas, ação socioambiental realizada juntamente com a sócia Letícia Parada, mestre e doutoranda, respectivamente, em Ciência e Tecnologia Ambiental pela Universidade Santa Cecília (Unisanta – Santos, SP).

 

Intitulada “Energia que Gera Valor Local, Impacto Global”, a palestra apresentou as atividades do projeto, que em essência auxilia as comunidades do entorno de praias, na coleta e transformação do plástico em itens que dialogam com o local – como raquetes e pranchas de mão –, envolvendo a pesquisa científica, com a análise dos tipos de plástico a serem aplicados conforme cada tipo de polímero.

 

Início do Projeto Paradas

 

Voltando no tempo, Reis conta que as ações nasceram a partir de um incômodo percebido dentro do próprio território – a falta de telhas para cobertura de casas e um material muito presente e indiscriminadamente descartado de forma incorreta: o plástico. “Atuava na área de engenharia civil e, quando realizei o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC, 2021) na graduação, me inspirei na própria região onde morava, que é carente. As casas feitas de madeira, com telhas quebradas, nos mangues, palafitas. Aí, eu decidi na problematização desse trabalho falar da construção de telhas feitas com o plástico – um problema de descarte incorreto muito presente no mundo. E esse material é leve e acessível”, descreveu.

 

A partir desse trabalho, Reis conseguiu uma bolsa de mestrado (2024) para colocar em prática a atuação, com o viés na conscientização e educação ambiental, o que envolve a coleta de plástico (residencial e nas praias), transformando-o em produtos sustentáveis, unindo pesquisa, inovação e impacto real no meio ambiente e aos próprios moradores dessas comunidades.

 

“O Paradas nasceu na união entre ciência e educação, por meio da troca de ideias entre mim e minha sócia, a Letícia. Na época, eu estava iniciando o mestrado e ela o doutorado, em tecnologia ambiental. Víamos que nossas linhas de pesquisa eram muito semelhantes, porém com contextos diferentes, já que no meu caso era voltado à engenharia civil e o dela para a educação. Aí, a gente começou a entender que tudo isso poderia se voltar a multidisciplinaridade e nossas atividades se permeiam nessas disciplinas”, salientou.

 

Plástico como propósito

 

Onze milhões. Esse é o número de toneladas descartadas por ano de plástico no Brasil, segundo a ONG WWF (2019), material esse que demora mais de quatro séculos para se decompor – nas palavras de Reis, transforma-se em microplásticos, ou seja, ele não desaparece do nosso ecossistema.

 

Em sua apresentação no SITEC, Caio Reis trouxe esse índice para exemplificar, porém como forma de não entender esse material como um problema, como uma oportunidade. “A questão está mais na desinformação que no material em si. Já somos impactados pelo plástico, que está em várias áreas, das nossas casas até na medicina. Mas ele deve ser entendido como o vilão? Buscamos entender que o plástico não é o vilão, mas como lidamos com ele”, frisou.

 

E prosseguiu: “Em vez de apenas descartá-lo, por que não reutilizado para virar um móvel ou mesmo se tornar outro produto em escala maior? Através da ciência, através da nossa frustração e indignação com aquele resíduo, que sempre esteve em alta, começamos a mudar a nossa tomada de decisão”, endossou em sua fala.

 

Ele destacou ainda a importância de compreender os tipos de plástico (saiba mais sobre essas nomenclaturas neste link) e suas funcionalidades, o que também proporciona um uso consciente desse material.  “Já que o plástico é algo tão importante, ele precisa de circularidade. Afinal, a indústria compra o plástico virgem, que é oriundo de extração de petróleo. Logo, há um custo nisso tudo para se fazer um material novo, que vai ser comprado por nós consumidores”, enalteceu.

 

Para Caio Reis, é relevante as pessoas terem ciência que atitudes simples, como a separação do lixo orgânico e de materiais que podem ser reciclados, causam impactos positivos profundos, não apenas ao meio ambiente, mas a uma massa trabalhadora essencial: os catadores.

 

“É preciso entender que, quando esse item quebra ou cai em desuso – como um CD, por exemplo –, esses materiais precisam ser descartados de maneira correta, acondicionados em um local fora do lixo comum. É aí a importância de dar visibilidade de outras frentes, como a dos catadores e a das cooperativas para o recolhimento desse material, que vai gerar renda a essa parte da cadeia”, aprofundou o especialista, ressaltando a necessidade de observar a gestão inadequada desses resíduos, o que inclui o incentivo a coleta seletiva, triagem e políticas públicas.

 

Impactos na economia local – e na vida das comunidades

 

Em constante contato com prefeituras, escolas e comunidades, além de parcerias com ONGs locais e também prospectando clientes, a dupla que capitaneia o Paradas realiza mutirões de coleta e produz itens (adquiridos por meio de canal direto via redes sociais), que são podem ser considerados como mobilizadores de educação ambiental, impulsionados pela promoção de palestras em instituições de ensino e empresas.

 

O especialista conta que após os mutirões, todo material coletado passa por higienização, separado por cores e, por sua vez, é triturado e modelado para a produção de itens. “Nas nossas atividades, mostramos os tipos de plástico, a separação deles para a produção de chaveiros, raquetes e brindes, que acabam por gerar renda e movimentar a economia local”, acrescentou.

 

Além da limpeza das praias, o Paradas também é um agente transformador às pessoas envolvidas. “Tivemos ações muito importantes, participações em programas de TV, parcerias com prefeituras. Mas o resultado mais bonito é com as famílias, inclusive nas nossas. Quando visito a minha avó, ela me entrega frasquinhos com as tampinhas plásticas que junta. E conta para as vizinhas que isso gera renda. E as crianças passam isso para os pais delas. E a escola faz isso dentro do seu espaço, mobilizando toda a comunidade escolar. É educação ambiental na prática”, concluiu.

 

Com o tema central “A jornada da sustentabilidade que transforma esforços e investimentos em propósito”, o SITEC Ambiental 2026 ocorreu no Centro de Convenções Frei Caneca, na capital paulista.

 

Acompanhe o Portal TECNEWS e siga @fitecambiental para saber as novidades.

Por Keli Vasconcelos – Jornalista

Foto: Sofia Jucon

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *