O Brasil gastou R$ 21,5 bilhões destinados à resposta a desastres provados por eventos climáticos extremos desde 2012, contra R$ 6,8 bilhões em ações preventivas, segundo dados do Painel de Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da União (TCU). O cenário evidencia um desafio que reforça a necessidade de preparar as cidades e as populações para eventos extremos que já são conhecidos e tendem a se tornar mais frequentes e intensos nos próximos anos, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, da sigla em inglês).
“Os dados mostram que ainda tratamos como surpresa riscos que já são conhecidos e recorrentes”, afirma Rafael Loyola, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e diretor da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS). “Precisamos abandonar a cultura da tragédia e adotar uma cultura de prevenção. Hoje, o Brasil gasta mais de três vezes com resposta e reconstrução do que com prevenção de desastres, nos níveis federal, estadual e municipal”, analisa.
As projeções para os próximos meses, com os efeitos do El Niño, serão uma espécie de laboratório de um cenário que pode se tornar cada vez mais frequente nos próximos anos. A meteorologia prevê o aumento de condições favoráveis a incêndios e redução dos níveis dos rios nas regiões Norte e Centro-oeste do país, com impactos sobre a navegação, a geração de energia e, em alguns casos, o abastecimento de água.
Na Região Sul, por outro lado, a maior ocorrência de chuvas intensas pode elevar o risco de inundações, deslizamentos e outros impactos associados aos extremos de precipitação. No Sudeste, ondas de calor também devem colocar as autoridades em alerta a partir da chegada da Primavera.
Loyola explica que a mudança de chave inclui o mapeamento e monitoramento permanente de áreas de risco, investimentos em drenagem, contenção de encostas, arborização urbana e recuperação de áreas naturais, além do aprimoramento dos sistemas de alerta à população.
De acordo com o especialista, também é necessário preparar estruturas e serviços essenciais para funcionar em condições adversas, antes que os eventos extremos ocorram. Hospitais, escolas, estradas, sistemas de abastecimento de água e redes de energia, por exemplo, precisam incorporar a perspectiva de aumento na frequência e na intensidade de tempestades, tornados, ressacas, secas, ondas de calor e outros eventos climáticos.
Olhar atento a cada território
Para André Ferretti, gerente Sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e membro da RECN, a adaptação às mudanças climáticas é um desafio global que precisa ser enfrentado a partir da realidade de cada território. “Ao contrário da mitigação, que tem foco na redução das emissões de gases de efeito estufa e pode ser feita em qualquer lugar do mundo, com efeitos positivos para todos, a adaptação exige ação local. É preciso olhar para cada território, mapeando riscos e vulnerabilidades”, afirma.
Isso significa, segundo ele, integrar diferentes áreas e atores às estratégias de preparação para reduzir riscos. “Adaptação envolve meio ambiente, saúde, educação, agropecuária, infraestrutura, entre outros setores. É um tema que deve envolver o Governo Federal, estados e municípios, os setores econômicos impactados e, portanto, deve ser do interesse de toda a sociedade”, salienta Ferretti.
O especialista ressalta que existem ferramentas gratuitas capazes de subsidiar essa mudança de paradigma. A plataforma Natureza ON, por exemplo, permite a qualquer cidadão consultar os riscos climáticos da região onde mora ou trabalha. A ferramenta também pode apoiar gestores públicos e investidores na tomada de decisões.
Desenvolvida pela Fundação Grupo Boticário em parceria com o MapBiomas, com tecnologia Google Cloud, a plataforma mapeia riscos de inundações, deslizamentos de terra e índices de segurança hídrica em todo o território nacional. Seu diferencial é também indicar Soluções Baseadas na Natureza que podem contribuir para aumentar a resiliência de cada território.
“A tecnologia pode ser uma grande aliada nessa cultura de prevenção e na busca por soluções. Existe muito conhecimento disponível para subsidiar um novo modelo de uso e ocupação do solo, com especial atenção para o papel da infraestrutura natural”, afirma Ferretti. Segundo o especialista, essa abordagem deve considerar a proteção de remanescentes de vegetação nativa, áreas verdes urbanas, rios e áreas úmidas, que contribuem para o controle da erosão, a estabilização de encostas e a regulação hídrica, da temperatura e da umidade relativa do ar, entre outros serviços essenciais para a segurança e a qualidade de vida da população.
A necessidade de antecipação aos eventos extremos será fundamental para reduzir os impactos crescentes no país. Segundo estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), desde os anos 2000, desastres relacionados à água atingiram quase 130 milhões de brasileiros e provocaram mais de R$ 740 bilhões em prejuízos.
Os números ajudam a reforçar uma mudança importante de perspectiva, destacando a necessidade de proteger investimentos, serviços públicos, infraestrutura e a própria capacidade de desenvolvimento das cidades.
O relatório “Retornos da resiliência: investir em adaptação para impulsionar prosperidade, crescimento e competitividade”, publicado em 2025 pela consultoria Systemiq, em colaboração com mais de 20 organizações internacionais, mostra que os investimentos em adaptação geram benefícios quatro vezes maiores que os custos. Além de evitar perdas, inclusive de vidas humanas, os investimentos em resiliência contribuem para impulsionar o crescimento e a competitividade das cidades.
Outro estudo, liderado pelo WRI, indica que cada US$ 1 investido em resiliência e adaptação climática gera US$ 10,50 em benefícios econômicos, sociais e ambientais para a sociedade ao longo de uma década. “Esses estudos mostram que a adaptação climática vem deixando de ser tratada apenas como um custo e passando a ser reconhecida como um investimento estratégico, capaz de gerar retornos econômicos e sociais”, enfatiza Ferretti.
Natureza também é infraestrutura
Além de obras e sistemas de monitoramento, especialistas defendem que a natureza precisa ser incorporada ao planejamento das cidades como parte da infraestrutura de adaptação. Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de Projetos da Fundação Grupo Boticário e especialista em Soluções Baseadas na Natureza, lembra que o modelo tradicional de expansão urbana contribuiu para aumentar a vulnerabilidade aos eventos extremos, com a supressão da vegetação, a impermeabilização do solo e a canalização ou ocupação de rios e nascentes.
“Esse foi o modelo predominante de desenvolvimento nas últimas décadas, mas não precisa mais ser assim. A natureza pode ser nossa maior aliada no enfrentamento aos impactos da mudança do clima”, afirma.
A recuperação de áreas verdes, a preservação de rios e nascentes, a criação de parques e áreas permeáveis e outras Soluções Baseadas na Natureza podem contribuir para reduzir riscos para a população. “São formas muito eficientes de lidar com os riscos associados ao excesso de água e às altas temperaturas, ao mesmo tempo em que geram benefícios para a qualidade de vida da população”, afirma.
Juliana integrou o comitê global de especialistas escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para definir indicadores de adaptação climática aprovados na COP30, realizada em Belém, no final do ano passado. Ela ressalta a dimensão dos investimentos urbanos envolvidos nesse processo de resiliência e adaptação climática.
“O volume de recursos destinados a projetos urbanos no Brasil é estimado em cerca de R$ 200 bilhões por ano. É um montante expressivo, mas que precisa incorporar a dimensão climática. Sem considerar os riscos e os impactos das mudanças do clima no planejamento dessas obras, parte desse investimento pode, em vez de preparar as cidades, contribuir para ampliar sua vulnerabilidade a eventos extremos e aprofundar a injustiça climática”, destaca. “Precisamos planejar melhor, conhecer os riscos de cada território e direcionar os investimentos de hoje para soluções que reduzam os impactos de um clima que já mudou”, conclui.




