Sabemos que é indiscutível a presença do plástico no nosso dia a dia, porém é também perceptível que esse material, ao ser destacado incorretamente, está proporcionando problemas ainda mais danosos – especialmente os microplásticos em ambientes como rios e mares.
Pesquisas brasileiras, aliás, estão relevando consequências ainda mais complexas: uma desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (UFLA) mostrou que peixes da bacia do Rio das Velhas (MG), um dos principais afluentes do Rio São Francisco, acumulam microplásticos há pelo menos duas décadas.
Para o estudo, realizado pela doutoranda Marina Ferreira Moreira, autora da tese no Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da UFLA (mais informações neste link), com orientação do professor Paulo dos Santos Pompeu, foram utilizados lambaris preservados, fruto de amostras coletadas desde 1999 para outros estudos, e agora reavaliados sob a perspectiva da contaminação plástica.
O levantamento também identificou que ambientes de água mais parada, como lagoas marginais e reservatórios, funcionam como zonas de acúmulo dessas partículas, elevando a exposição dos organismos aquáticos, informa a pesquisadora.
“Embora os efeitos dos microplásticos na saúde humana ainda estejam em investigação, o fato de essas partículas circularem na alimentação acende um alerta, já que o peixe é uma fonte importante de alimento para muitas comunidades. Entender onde e como ocorre a contaminação é essencial para pensar em conservação dos rios e segurança alimentar”, reforça Moreira.
Em águas profundas do Brasil
Outro estudo, este feito com a análise de sedimentos e animais que vivem entre 400 e 1,5 mil metros de profundidade na Bacia de Santos, revelou a presença de microplásticos e dos chamados poluentes orgânicos persistentes (POPs) – PCBs (bifenilas policloradas, ou isolantes elétricos), e os PBDEs (éteres difenílicos polibromados, ou retardantes de chamas).
O estudo foi feito por pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Em relação aos microplásticos, os achados foram as fibras encontradas nos invertebrados analisados, sendo cinco tipos classificados como esses polímeros.
Os mais relevantes foram a poliamida e a poliacrilonitrila, comuns na indústria têxtil; a poliariletercetona e o poliestireno, que se destacam pela resistência e aplicações diversas; e o polissulfeto, uma borracha sintética, o que levanta a hipótese de que a fonte da contaminação seja proveniente da indústria offshore na Bacia de Santos.
“Mesmo quando a origem da poluição plástica é a costa, em algum momento essas partículas chegam ao mar profundo, como é chamado todo o ambiente marinho a partir de 200 metros de profundidade. Organismos detritívoros, que se alimentam de detritos no leito marinho, e filtradores são especialmente propícios a ingerir microplásticos”, explica Gabriel Stefanelli-Silva, primeiro autor do estudo, realizado durante doutorado no IO-USP com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Vale ressaltar que, atualmente, cinco plataformas atuam nessa área e estão previstas para o próximo ano mais seis. A Petrobras, que administra as atividades na Bacia de Santos, conta com Projeto de Monitoramento de Praias (PMP-BS), em atendimento às condicionantes do licenciamento ambiental federal conduzido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que realiza o resgate de animais em 15 trechos litorâneos dos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e do Rio de Janeiro.
“Aproximadamente 80% das tartarugas-verdes (Chelonia mydas) apresentam resíduos plásticos no trato gastrointestinal durante o exame de necropsia. E a presença desses resíduos pode causar lesões, mas a maioria passa pelo estômago e intestino e são eliminados, ou seja, é um fator debilitante, mas muitas vezes não a causa direta de óbito”, explica Vanessa Lanes Ribeiro, médica veterinária e responsável técnica do Instituto Biopesca, que atua no Trecho 8 do PMP-BS, no Litoral Sul de São Paulo.
O que são microplásticos?
Os microplásticos são fragmentos com menos de cinco milímetros, dispersos, por exemplo, em ambientes aquáticos e no ar, incorporados aos organismos que vivem nesses ecossistemas, o que incluem nós seres humanos.
No mundo todo, mais de 330 milhões de toneladas de plástico são produzidas anualmente, com estimativas que já existam 4,9 bi de toneladas de resíduos plásticos, de diferentes tamanhos e composições químicas. E para 2050, a previsão é de chegue a 12 bilhões de toneladas métricas/ano, de acordo com estudo divulgado na VEJA.
Por Keli Vasconcelos – Jornalista
Foto: Freepik/Magnific




