Da Redação

Espinha dorsal digital: a balança entre data centers e impactos ambientais

Espinha dorsal digital a balança entre data centers e impactos ambientais - Portal Tec News

Considerados como a espinha dorsal de muitas funções computacionais, sendo a inteligência artificial (IA) a bola da vez, os data centers estão no centro da agenda ESG, seja na implantação, seja na operação em si, com destaque para a eficiência energética e impactos ambientais.

Para se ter uma ideia, uma reportagem do UOL apurou que dois novos projetos na cidade de Caucaia (CE), em fase de licenciamento, preveem um consumo de energia equivalente ao de 4,5 milhões de residências, superior aos 3,8 milhões de domicílios locais.

Por outro lado, é inegável os avanços que essas estruturas proporcionam a diversas áreas da economia, reverberando a setores que vão da fabricação de componentes até Pesquisa e Desenvolvimento. Hoje, representam 1,7% do consumo total de energia elétrica no país, segundo levantamento da Brasscom, Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais, ABDC (Associação Brasileira de Data Centers) e FADURPE (Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional, 2025). A ABDC também estima que, considerando todos os data centers testados e verificados (comissionados), 1 gigawatt (GW) é destinado a processamento de dados no território nacional.

Nesta matéria, fazemos um panorama da implantação, mitigação de riscos, relação com a localidade e pontos mais detalhados, como cabeamento e conectividade, desse personagem já presente em nosso cotidiano.

 

Territórios e comunidades

 

A regulamentação, mais especificamente o licenciamento ambiental, ainda é um dos temas sensíveis. Em audiência recente na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG; entenda neste link), parlamentares e entidades ressaltaram a importância da IA, mas chamaram a atenção para as consequências socioambientais, que não podem ser negligenciadas.

“É algo muito robusto. Não é uma discussão contra o desenvolvimento econômico e tecnológico, mas sobre a necessidade de maior transparência e de uma regulação”, comentou Amanda Gondim, vereadora de Uberlândia, município que está para receber um data center (falaremos mais a seguir).

Em Caucaia, citada no início deste texto, associações ambientais criticaram o uso de Relatórios Ambientais Simplificados (RAS), pois o modelo apequena a profundidade de estudos e audiências públicas.

Outra contestação envolve um data center para IA na área portuária de Miramar em Belém, sendo o primeiro na Amazônia. O BEL1, empreendido pela Elea Data Centers, terá a capacidade de 7,5 megawatts, e posteriormente expandirá para até 100 megawatts. De acordo com apuração do g1, apenas na etapa inicial, a potência seria suficiente para abastecer mais de 22,5 mil residências na região Norte (dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia), um risco para formação das chamadas ilhas de calor.

Isso resultou em um inquérito civil do Ministério Público do Pará (MPPA), em que o promotor Márcio Maués, da 1ª Promotoria de Justiça de Barcarena, investiga a legalidade da instalação e os riscos de “dano climático”.  Segundo o g1, além da ausência de licenciamento ambiental, não houve consultas públicas com moradores que ficam próximos ao local da instalação. Já a empresa alega que estudos para a solicitação de licenciamento ambiental estão em andamento.

 

Regulamentação dos data centers e IA, mensuração e mitigação

 

No Brasil, tramita o Projeto de Lei nº 3018/2024, que dispõe sobre a regulamentação dos data centers de IA, e que aguarda audiência pública. Em junho, na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática (CCT) do Senado, o conselheiro substituto da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Nilo Pasquali, enfatizou o data center como uma “infraestrutura crítica para a economia digital”, sendo base para a IA, 5G e serviços em nuvem e digitais. Ele defendeu a descentralização e ponderou que a legislação deve distinguir claramente um data center de uso geral daqueles construídos exclusivamente para demandas de IA.

A pauta é intensificada pelo Regime Especial de Tributação para Datacenters (REDATA), medida do governo federal para isenção fiscal dessas estruturas. Faz parte da Política Nacional de Data Centers (PNDC), que determina a disponibilização para o mercado interno no mínimo 10% da capacidade de processamento, armazenagem e tratamento de dados, além do uso de energia renovável e padrões de eficiência hídrica (mais neste link).

Enquanto as discussões ganham corpo, a aceleração dessas estruturas se avoluma no país: dados da própria Brasscom divulgados pelo Outras Palavras (2025), destacam que havia 843 MW de potência instalada em 2024, número que pode saltar para 3.144 MW em 2031.

Essa medida de eficiência é feita por meio de métricas, sendo a mais conhecida o PUE (sigla para Power Usage Effectivenes; eficiência energética); e seguida pelo WUE (Water Usage Effectiveness; consumo de água).  Outro fator pouco explorado é a Eficiência no Uso de Carbono (CUE; saiba mais no Portal TECNEWS), que mede as emissões de gases de efeito estufa (GEE) antes mesmo das operações iniciarem.

Na opinião de Jaciele Rodrigues, diretora comercial da DEERNS, especializada na otimização de instalações para edifícios, enquanto o carbono operacional pode ser reduzido ao longo da vida útil do empreendimento por meio de eficiência energética e uso de fontes renováveis, o carbono incorporado é emitido ao longo da produção, do transporte e construção.

“Talvez a maior oportunidade esteja em uma estratégia ainda mais eficiente. Projetos mais enxutos, modelagem digital, engenharia integrada e ferramentas avançadas de simulação permitem reduzir significativamente o volume de concreto e aço sem comprometer segurança, disponibilidade ou desempenho”, exemplifica Rodrigues, em artigo ao ESG Inside.

 

Infraestruturas ecoeficientes 

 

Um levantamento da consultoria JLL, divulgado pela Exame, estima que o mercado de infraestrutura dedicada a IA, na América do Sul crescerá 68% nos próximos anos. Em relação à eletricidade, a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) projeta que esse consumo deva dobrar até 2030 no mundo, sendo que, entre 2025 e 2026, a demanda deles por eletricidade cresceu 17%. Por outro lado, representaram 40% dos contratos globais de PPAs (sigla em inglês para “Acordos de Compra de Energia”) de energia limpa em 2025.

Ainda a IEA (mais informações), aponta que a demanda energética para essas estruturas de IA poderá ser atendida por uma combinação de fontes renováveis, gás natural, armazenamento e, inclusive, energia nuclear, com destaque para pequenos reatores.

As operações são praticamente ininterruptas, o que demandam soluções em resfriamento para não ocorrer sobrecargas. Para tanto, recorre-se a métodos de refrigeração líquida direct-to-chip, que elimina o consumo de água no processo de resfriamento.

“O WUE mede quantos litros de água a instalação consome para cada quilowatt-hora de computação. É um índice diferente do PUE, que é o mais divulgado, mas estão intrinsicamente ligados. Um PUE pode estar ótimo enquanto a operação consome muita água. Os dois precisam ser lidos juntos”, explica, ao TECNEWS, Fernando Palamone, CEO da RT-One, empresa com projetos em Maringá (PR) e Uberlândia (MG).

Fernando Palamone, CEO da RT-ONE

 

As estruturas de aplicação de IA foram desenhados para operar com PUE inferior a 1,2 e WUE igual ou menor que 0,05 litro por kWh. “O direct-to-chip não foi escolhido só por causa de água. As densidades de processamento que a IA exigem hoje não são mais resfriáveis a ar, a física não permite. Então, o sistema que gasta menos água é também o único que dá conta da carga térmica que precisamos operar”, diz o executivo.

“No caso de Uberlândia, a RT-One protocolou um processo de viabilidade técnica junto à Prefeitura (SEPLAN), que envolveu sete órgãos técnicos municipais, incluindo a Secretaria de Meio Ambiente (SMGAS). O resultado foi a emissão de pareceres favoráveis, atestando a compatibilidade da atividade com o planejamento urbano e de infraestrutura, incluindo o aval das concessionárias CEMIG (energia) e DMAE (água/esgoto)”, frisa Fernando Palamone.

Ele acrescenta ainda que a dispensa de licenciamento não altera o padrão de excelência da engenharia do projeto. No campus tecnológico em Uberlândia, haverá sistemas de captação e reúso de água pluvial para irrigação do paisagismo, composto por vegetação nativa preservada, limpeza e reserva de incêndio, o que diminui a pressão sobre o sistema público de abastecimento, pontua o gestor.

“Adotamos, desde a concepção, premissas de sustentabilidade baseadas em padrões ESG internacionais, implementando tecnologias que garantam o menor impacto ambiental possível, resultando em eficiência energética máxima e consumo hídrico operacional de resfriamento virtualmente nulo, superando exigências que seriam feitas mesmo se o licenciamento fosse obrigatório”, responde Palamone, ao TECNEWS.

Em julho, a empresa encerrou o contrato do terreno onde planejava construir a instalação. Segundo reportagem do Intercept Brasil, o terreno pertence ao Fundo Bacuri, até 2025 administrado pela Reag Trust, passando para a WNT Capital, ambas mencionadas sobre supostas irregularidades envolvendo o Banco Master.

Em comunicado divulgado pelo IP News, a empresa informou que a rescisão contratual foi feita de comum acordo com o fundo e motivada por “fatos supervenientes envolvendo as administradoras”, ressaltando que a decisão não implica reconhecimento de irregularidades. Com o encerramento, a companhia busca uma nova área em Uberlândia e em outras localidades.

A Prefeitura de Maringá, por sua vez, encaminhou em abril ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) os documentos para regularização dos terrenos adquiridos na construção da Zona de Processamento de Exportação (ZPE), que terá um centro de processamento de dados desenvolvido pela RT-One.

Outra multinacional também adotará medidas de resfriamento semelhantes. Trata-se da Terranova, que tocará em Campinas (SP) uma unidade prevista em operar por completo a partir de 2029, com a promessa de ter 40% da atual capacidade de TI comissionada do país. Ao g1, o CEO Mauricio Giusti disse que o tradicional uso de ar-condicionado gera evaporação, o que, consequentemente, consome água em demasia.

Os investimentos iniciais na unidade de Campinas estão em R$ 5 bilhões, chegando a R$ 20 bi nas diferentes fases de implantação, e previsão de geração de 3,6 mil empregos diretos e indiretos, ocupando 944 mil m², com 115 mil m² destinados à área construída. Em contrapartida, a prefeitura exigiu que aproximadamente 285 mil m² fossem preservados como áreas verdes ou destinados ao município, segundo a Prefeitura de Campinas.

 

Cabos submarinos

 

A conectividade é fundamental para o processamento de dados e a aposta está na utilização de cabos submarinos, combinando infraestruturas energeticamente eficientes e malhas internacionais de baixa latência. Com a sensação de que estão invisíveis para o mundo, já respondem por mais de 98% do tráfego internacional de dados, expandindo-se em áreas como o 5G no Brasil. Sua regulação é prevista na Agenda Regulatória 2025–2026 da Anatel (mais informações) e com parques em regiões do Ceará e Rio Grande do Sul.

As empresas V.tal e a Meta, dona do Instagram, Facebook e WhatsApp, por exemplo, iniciaram este ano a ancoragem da extensão do sistema Malbec no RS, conectando a infraestrutura submarina à Cable Landing Station (CLS) de Balneário Pinhal, integrando o cabo instalado no oceano e a rede terrestre em construção até Porto Alegre.

De acordo com a V.tal, a cidade está posicionada como centro estratégico de conectividade para o Cone Sul (Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai – branch unit de 280 km). “O projeto coloca Porto Alegre em um novo patamar, criando um ecossistema robusto e inovador que beneficiará toda a região e países vizinhos, transformando a experiência digital da população”, diz Felipe Campos, CEO da V.tal.

Em evento promovido pelo site Tele.Síntese, o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, defendeu a renovação do parque de cabos submarinos no país, destacando a celeridade em identificar áreas ambientalmente críticas e integrar os procedimentos adotados por União, estados e municípios, com o foco na clareza jurídica e regulatória aos responsáveis pelos investimentos, sem deixar de lado as exigências ambientais aplicáveis.

Para Fernando Palamone, da RT-One, o que ainda separa o Brasil de mercados como EUA e Europa, não é a falta de interesse ou de capital para investir, mas a infraestrutura habilitadora necessária para sustentá-la. Ele exemplifica o déficit de infraestrutura digital soberana: cerca de 60% dos dados gerados aqui ainda são processados no exterior, de acordo com o Ministério da Fazenda. “A transformação digital vai acontecer com o Brasil dentro dela de um jeito ou de outro. O que está em jogo é se ela acontece com o dado brasileiro processado com infraestrutura e emprego qualificado nossos, ou se acontece com o Brasil comprando capacidade que está em outro lugar”, detalha.

Eis que encontramos um assunto com várias camadas: a corrida pela transição energética, a estabilidade desses sistemas, regulamentação, diálogo com territórios e comunidades, e detalhes, que vão de cálculos de carbono incorporado até compensação ambiental.

A questão não é mais sobre o futuro dos data centers, mas como equilibrar essa balança complexa – e de práticas urgentes e indispensáveis, em suma.

 

Por Keli Vasconcelos – Jornalista do Portal TECNEWS

Fotos: DC Studio/Magnific e Divulgação