Por Keli Vasconcelos
Colaboração: Sofia Jucon
Estamos em mais um período de eleições e existe uma máxima que alguns temas “não rendem votos”, com destaque para o saneamento básico (aliás, falamos anteriormente disso no Portal TECNEWS) e meio ambiente. Entretanto, justamente esses pedem passagem há anos, e já impactam profundamente a vida dos eleitores, principalmente no tempo presente: do Super El Niño ao calor extremo, dos prejuízos a áreas essenciais – como indústria, saúde e agricultura –, até estratégias de União, Estados e Municípios para tais enfrentamentos.
Nessa corrida presidencial, entre estatísticas e discursos, o público engrossa o coro para que o meio ambiente esteja em pauta e, principalmente, uma prática: levantamento o Ipsos a pedido do Observatório do Clima, por meio de questionário online com 1,8 mil brasileiros com 18 anos ou mais, em todo o país, entre os dias 17 e 20 de agosto, mostrou que 91% dos respondentes consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas.
Já para 62% a questão é considerada “muito importante”, e, escrutinando o estudo, 87% concordam que secas, chuvas intensas e ondas de calor são consequências das mudanças climáticas, enquanto 85% reconhecem que isso afeta o cotidiano. Para 79%, o tema deve ser priorizado mesmo que implique custos econômicos e 76% afirmam que ainda dá tempo para evitar o pior, caso sejam tomadas medidas imediatas.
Eleições no radar ambiental
No âmbito empresarial e industrial, entidades entregaram cartas aos presidenciáveis com recomendações, a exemplo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), cujo foco do documento foi fomentar o conhecimento sobre as resoluções e os instrumentos que poderão ser feitos por parte dos futuros governantes, com foco na aceleração de implementações.
“A Carta propõe, antes de tudo, um projeto de país. O Brasil precisa transformar suas vantagens ambientais e energéticas em competitividade, desenvolvimento e prosperidade. Isso significa deixar de ser apenas fornecedor de commodities e avançar na geração de valor a partir das soluções climáticas que o país já tem condições de oferecer ao mundo”, disse, ao Estadão, Marina Grossi, presidente do CEBDS.
Deste modo, é nítido, portanto, que os rumos do país em relação à agenda ambiental já não cabem mais na argumentação, mas em práticas que precisam se aplicar a partir de 1º de janeiro de 2027. Mas, e agora? Os candidatos têm propostas concretas para essa agenda? Como aplicarão medidas de prevenção, adaptação e mitigação de riscos? Haverá viabilidade já no primeiro ano de mandato? Estamos em uma inércia ou com um horizonte de possibilidades?
Planos de governos para a agenda ambiental
Nesta entrevista exclusiva ao Portal TECNEWS, conversamos com Eduardo Mattos, engenheiro ambiental, mestre em Engenharia de Recursos Hídricos e Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e sócio-diretor comercial da Forte Desenvolvimento Sustentável, especializada em licenciamento ambiental, certificações e ESG.
A consultoria estratégica se debruçou nos planos oficiais protocolados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dos seis candidatos mais bem posicionados nas pesquisas – Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema –, com o intuito de oferecer uma leitura técnica, comparativa e apartidária desse termômetro.
Acompanhe.
Portal TECNEWS: Por que a pauta ambiental e de transição climática perdeu protagonismo no debate eleitoral direto, mesmo com o Brasil enfrentando secas e eventos extremos recorrentes? Essa omissão reflete receio de atrito com setores econômicos ou falta de maturidade técnica dos planos?
EDUARDO MATTOS: As duas coisas aparecem, em graus diferentes. O tema não desapareceu dos documentos, já que todos os seis programas dos candidatos analisados têm capítulo ambiental, mas migrou para o texto escrito e saiu do debate falado, porque o ambiente ainda é tratado como custo, e não como condição de competitividade. Quando o assunto entra no palanque, entra pela emergência, como enchente, seca ou incêndio, e não pelo planejamento. O resultado é que a discussão pública fica na intenção enquanto a parte difícil, que é orçamento, responsabilidade, planejamento e dado confiável, permanece no rodapé dos planos.
Portal TECNEWS: Ao analisar os documentos protocolados no TSE, o que se observa é uma mudança real de rumo ou os programas apenas repetem discursos genéricos de eleições passadas com nova roupagem?
EDUARDO MATTOS: Há evolução real em vocabulário e em instrumentos. Mercado regulado de carbono, bioeconomia, pagamento por serviços ambientais (PSA), rastreabilidade e uso de satélite aparecem hoje como consenso entre programas de campos opostos, o que não acontecia em eleições anteriores. O que permanece genérico é a engenharia de execução, isto é, quem faz, com qual verba, em qual prazo e sob qual indicador. Então a resposta honesta é meio termo, com convergência maior de agenda e maturidade ainda desigual de implementação.
Portal TECNEWS: Quais dos seis candidatos apresentaram metas concretas com prazo, previsão orçamentária e arranjo de governança, e quais ficaram apenas em declarações de intenção?
EDUARDO MATTOS: Prefiro responder por grau de detalhamento, que é o que a matriz mede. Em meta datada e quantificada, os planos de Lula, com desmatamento líquido zero até 2030 e Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) de 59% a 67% de redução até 2035; de Flávio Bolsonaro, com desmatamento ilegal zero até 2029, e de Augusto Cury, com 90% de fontes limpas até 2040, são os que trazem número e data. Já Caiado e Zema trazem agenda ampla e instrumentos, com menos metas quantificadas, e o plano de Renan Santos não fixa meta central de emissões ou desmatamento, priorizando infraestrutura e simplificação regulatória. Em previsão orçamentária e arranjo de governança, nenhum dos seis está completo, e esse é o ponto frágil comum.
Portal TECNEWS: O debate público costuma misturar os conceitos de “desmatamento ilegal zero” e “desmatamento líquido zero”. Na prática, qual é a diferença técnica e quais candidatos adotam uma ou outra linha?
EDUARDO MATTOS: São compromissos diferentes. Desmatamento ilegal zero significa acabar com o corte fora da lei, mantendo o desmatamento autorizado, que é legal e continua emitindo, logo é uma meta de fiscalização. Desmatamento líquido zero significa que o que se perde precisa ser compensado por restauração equivalente, ou seja, é uma meta de saldo, mais ambiciosa em termos de clima e mais exigente em monitoramento. No material analisado, o plano de Lula adota a linha do líquido zero até 2030 e o de Flávio Bolsonaro adota a de ilegal zero até 2029. Vale reforçar que líquido zero não é automaticamente melhor, porque compensar o hectare não compensa a biodiversidade, já que a floresta madura e a floresta restaurada não são equivalentes.
Portal TECNEWS: Alguns programas defendem sustentabilidade e corte de emissões enquanto prometem expandir exploração de petróleo, gás, mineração e obras viárias. Do ponto de vista de engenharia e planejamento ambiental, como compatibilizar essas duas pontas sem gerar insegurança jurídica ou retrocesso climático?
EDUARDO MATTOS: Essa tensão está presente em quase todos os planos, inclusive nos de campos opostos, e não se resolve no discurso, e sim no cronograma. Do ponto de vista de engenharia, compatibilizar significa três coisas, a saber: trajetória de emissões explícita, mostrando como cada novo projeto cabe dentro da meta; avaliação ambiental estratégica feita antes da decisão de investir, e não depois; e destinação da renda fóssil para financiar a transição, e não para ampliá-la indefinidamente. Sem isso, o risco não é só climático, porque também é jurídico e financeiro, com ativos que podem perder valor e obras que travam em judicialização. Insegurança jurídica nasce justamente dessa contradição entre o que o plano promete no capítulo climático e o que ele autoriza no capítulo de infraestrutura.
Portal TECNEWS: Algum candidato detalhou como mitigará o impacto dessas grandes intervenções de infraestrutura ou essa conta ficou em aberto?
EDUARDO MATTOS: Essa conta ficou substancialmente em aberto nos seis documentos. Os planos citam licenciamento, condicionantes e compensação de forma genérica, mas nenhum apresenta metodologia de avaliação de impacto acumulado, que é o que realmente importa quando várias intervenções incidem sobre a mesma bacia ou o mesmo corredor ecológico. Em obra viária, por exemplo, mitigar não é plantar mudas ao final, e sim decidir traçado, passagem de fauna e drenagem ainda na fase de projeto, que é quando o custo de corrigir é baixo.
Portal TECNEWS: O licenciamento costuma ser tratado na política como entrave burocrático ao desenvolvimento. Como modernizar e acelerar os processos sem esvaziar o rigor técnico e a proteção ecológica?
EDUARDO MATTOS: O licenciamento não é lento por excesso de rigor, e sim por processo desorganizado, análise em papel, exigência que varia de analista para analista e informação ambiental dispersa em bases que não conversam. Quem trabalha com isso todos os dias percebe que boa parte do tempo de um processo é tempo parado, e não tempo de análise. O caminho é ganho de eficiência, com quatro frentes: proporcionalidade ao risco, aplicando análise leve ao empreendimento de baixo impacto e análise robusta ao de alto impacto; digitalização ponta a ponta, com protocolo, análise e decisão em sistema único; padronização de procedimentos e de termos de referência, para que a exigência seja previsível; e prazo associado à responsabilidade definida, de modo que cada etapa tenha responsável e rastreabilidade da decisão. Isso não depende de inflar a máquina pública, e sim de organizar e qualificar a estrutura que já existe, inclusive com uso de tecnologia e com aproveitamento de laudos e estudos produzidos por profissionais habilitados, sob responsabilidade técnica.
Portal TECNEWS: O mercado regulado de carbono e a bioeconomia aparecem como consensos nos planos. O que falta nesses projetos para que esses instrumentos saiam do papel e atraiam capital privado internacional?
EDUARDO MATTOS: Falta integridade verificável, que é o que o capital internacional compra. Na prática, são quatro peças: regulamentação completa e estável do mercado regulado, com regras de mensuração, relato e verificação; registro público de projetos que impeça dupla contagem; segurança fundiária, porque sem titularidade clara não há crédito confiável; e repartição justa de benefícios com comunidades locais, que é hoje o principal fator de risco reputacional. Bioeconomia, além disso, depende de infraestrutura e de rota logística, já que não existe cadeia de valor sem energia, internet e escoamento.
Portal TECNEWS: Como a tecnologia (como monitoramento por satélite, sensoriamento remoto e rastreabilidade de cadeias produtivas) é abordada nos planos para viabilizar as metas anunciadas?
EDUARDO MATTOS: Ela é o maior consenso da análise, porque satélite, sensoriamento remoto e rastreabilidade aparecem em praticamente todos os programas, com destaque para o uso de inteligência artificial e drones no projeto Floresta Viva, do plano de Cury, e para a inteligência financeira contra crimes ambientais, no plano de Caiado. O ponto que a matriz evidencia é que o Brasil já detecta bem e responde mal.
Portal TECNEWS: A maior parte das propostas foca em mitigação (reduzir emissões e corte de árvores). O que os presidenciáveis propõem para a adaptação climática — prevenção de desastres, resiliência urbana e segurança hídrica?
EDUARDO MATTOS: É o vazio mais evidente da análise, e o mais caro para o país também. A mitigação rende meta e manchete, enquanto a adaptação rende obra de drenagem, mapa de risco e remoção de área de encosta, que é agenda impopular e de resultado invisível quando funciona. Aparecem menções à segurança hídrica, saneamento e adaptação, com mais desenvolvimento no plano de Caiado, mas nenhum dos seis apresenta um programa nacional estruturado de resiliência urbana com fonte de recurso definida. Considerando o que o país viveu em eventos extremos recentes, essa é a lacuna que mais deveria preocupar prefeitos e setor de infraestrutura.
Portal TECNEWS: Se tivesse que apontar a principal prioridade ambiental inegociável que o próximo presidente precisará executar já no primeiro ano de mandato, qual seria?
EDUARDO MATTOS: Tornar os órgãos ambientais mais eficientes, o que significa processo digital, procedimento padronizado, dado público integrado e responsabilidade clara sobre cada decisão. Não se trata de criar estruturas novas nem de ampliar o Estado, e sim de fazer o que já existe funcionar com prazo, transparência e previsibilidade, aproveitando tecnologia e a responsabilidade técnica de quem assina estudos e laudos. É a resposta menos atrativa politicamente e a que sustenta todas as demais, porque sem órgão funcionando não há meta de desmatamento cumprida, não há licença confiável, não há mercado de carbono íntegro e não há adaptação planejada. Se for para escolher uma entrega visível já em 2027, eu diria o plano nacional de adaptação com fonte de recurso definida, porque protege a vida e protege o investimento ao mesmo tempo.
Portal TECNEWS: Diante da análise comparativa que a Forte realizou, quais são as suas reais expectativas para a pauta da sustentabilidade no próximo mandato? O senhor enxerga uma mudança estrutural de prioridades ou o tema continuará refém da reação a crises climáticas extremas?
EDUARDO MATTOS: Minha expectativa é de avanço incremental, e não de mudança estrutural de prioridades. O tema entrou de vez na agenda econômica, o que é bom e é irreversível, mas ainda avança principalmente por reação, seja a desastre, seja a pressão de mercado externo, como as exigências de rastreabilidade na exportação. A mudança estrutural só ocorre quando a variável ambiental entrar no planejamento de infraestrutura desde o início, e não como capítulo separado. Trabalhamos para que isso aconteça, mas a análise dos planos não permite afirmar que já esteja acontecendo.
Portal TECNEWS: Pensando no ambiente corporativo e de infraestrutura, que tipo de sinalização o próximo presidente precisará dar logo no início da gestão para garantir previsibilidade a quem quer investir em descarbonização, transição energética, gestão de resíduos e bioeconomia no Brasil?
EDUARDO MATTOS: Estabilidade regulatória em primeiro lugar, porque quem investe em descarbonização trabalha com retorno de dez a vinte anos e não aceita regra que muda a cada gestão. Na prática, isso significa regulamentar o mercado de carbono e mantê-lo estável, definir com clareza a política de resíduos e de logística reversa, dar trajetória explícita para a matriz energética, incluindo o papel do gás e do petróleo, e garantir que o licenciamento tenha prazo, e que o órgão ambiental tenha a devida capacidade e responsabilidade de cumprir. E um recado que costuma faltar: previsibilidade vale mais que incentivo pontual, porque incentivo atrai projeto e regra estável atrai capital.

Por Keli Vasconcelos – Jornalista do Portal TECNEWS Ambiental
Colaboração: Sofia Jucon – Jornalista do Portal TECNEWS Ambiental
Fotos: Magnific e Forte/Divulgação




